Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único instante
desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação
depois de uns amores longos e contrariados,
e haviam transcorrido a partir de então
cinqüenta e um anos,
nove meses e quatro dias
Juntar o meu
cantar vagabundo
àqueles que zelam
pela alegria do mundo,
entender que
o certo é louco,
tomar eletrochoque,
ia explodir,
mas eles não vão ver
os meus pedaços por aí,
é pela paz que eu não
quero seguir admitindo,
abre a roda
quem tá fora
e quem tá dentro
participa,
eu não sou daqui,
eu não tenho amor,
hoje você é quem manda,
falou tá falado,
não tem discussão, não,
apesar de você
amanhã há de ser
outro dia,
nem tudo apodrecido
de modo
que se possa dizer
nada presta,
nem todos derrotados
de modo que não se
possa fazer uma festa,
uma festa,
é triste ver meu homem,
guerreiro menino,
com a barra
do seu tempo
por sobre
os seus ombros,
eu vejo que ele berra,
eu vejo que ele sangra
a dor que tem no peito
pois ama e ama,
um homem se humilha
se castram seus sonhos,
seu sonho é sua vida
e vida é trabalho
e sem o seu trabalho
um homem não tem honra
e sem a sua honra
se morre e se mata,
queremos saber quando
vamos ter
automóvel mais barato,
queremos notícia mais
séria sobre
a descoberta
da antimatéria,
a minha
alma está armada
e apontada
para a cara do sossego,
pois paz sem voz
não é paz,
é medo,
e quando lavarem
a água e quando
lavarem a alma,
digam o gosto
pra mim,
nunca mais
vais beber
minhas lágrimas,
uma bala
cega sem destino
foi no peito
do trabalhador,
esse era o sonho
do menino,
o certo é saber
que certo é certo,
e não aceitar
sossegado
qualquer sacanagem ser
coisa normal,
eu nem sei o que
o meu corpo abriga
nessas noites quentes
de verão,
nas de frio
é melhor nem nascer,
nas de calor
é matar ou morrer,
transformam
o país inteiro
num puteiro,
pois assim
se ganha mais dinheiro,
no Amazonas,
no Araguaia,
na baixada fluminense,
ninguém respeita
a constituição,
pegue sua moral,
regras e regulamentos,
pegue, junte tudo,
passe vaselina, enfie,
soque, meta
no tanque de gasolina,
se na juventude
já vem tudo javali,
o Brasil é uma república
federativa cheia de reis
e gente dizendo adeus,
sem que eu veja a rua
podre e a
fumaça de São Paulo,
eu vim da Bahia cantar,
há um poeta em mim,
que deus me disse,
quem é ateu
e viu milagres
como eu
sabe que os deuses
sem Deus não cansam
de brotar, o povo
foge da ignorância
apesar de viver
tão dentro dela,
e sonham com melhores
tempos idos, contemplam
essa vida numa sela, oh,
olhe toda essa gente
solitária,
perdoe esse pobre
coitado
que de joelhos
rezou um bocado
pedindo pra chuva
cair sem parar,
oh deus, quem sabe
o senhor se zangou
e só por isso o sol
arretirou fazendo cair
toda a chuva quer há,
se eu não rezei direito
o senhor me perdoe
eu acho que a culpa
foi desse pobre
que nem sabe fazer
oração,
desculpe eu pedir
a todo hora pra chegar
o inverno, desculpe
eu pedir pra acabar
com o inferno que
sempre queimou
o meu ceará,
paraíba masculina,
mulher-macho sim senhor,
há uma bala no meu corpo
e não é bala de coco,
catolé do rocha,
praça de guerra,
bahia de são salvador,
pedaço de terra
que é meu,
mundo mundo,
vasto mundo,
não fosse por você,
nem notava essa cidade,
o meu amor quando
me beija faz o mundo
revirar, que nem a lua
minguando, que nem o
meu nos seus braços,
mas é carnaval, não
me diga mais
quem é você,
amanhã tudo volta
ao normal,
deixa que o meu samba sabe
tudo sem você, nem o som
da mais linda melodia,
nem os versos
dessa canção
irão valer, de nada
valeria acontecer
de eu ser gente, e gente
é pra brilhar, não pra
morrer de fome,
traga-me um copo dágua,
tenho sede e essa sede
pode me matar,
se é pra morrer quero
morrer contigo,
com você meu mundo
ficaria completo,
o problema é que eu te amo,
saudade vem e vai,
o amor é que me levará
pra você,
pra você sorrir,
pra você chorar,
pra você feliz,
pra você amar,
amarra o teu arado
a uma estrela,
você sonhava,
não se lembra mais
de mim,
tudo que você devia ser,
ou nada,
tudo que move é sagrado,
e remove as montanhas
com todo cuidado, meu amor,
cuidado na estrada
e quando você voltar
feche o portão,
se eu demorar uns meses
convém às vezes
você sofrer, mas depois
de um ano eu não vindo,
ponha a roupa de domingo,
pode se preparar,
que eu to voltando,
to bebendo, to pagando,
quero uma bebida agora,
agora que nós somos dois
amantes cinzas,
agora que o carnaval passou,
agora que nós somos
duas partículas,
caso sério,
ao som de um bolero,
muita estrela,
pouca constelação,
coração,
que alegria
ao rever essa menina,
meu coração
não se cansa
de ter esperança,
alegria é um dom
que herdei do meu rei
lá dos tempos de outrora,
um dia estranhei
os carinhos dela,
disse adeus, Mariana,
que eu já vou me embora,
já vou embora,
mas sei que vou voltar,
o meu caminho
a ti não conduzia,
não queria
o amor em seu reinado,
pois sabia,
não ia ser amado,
amor, não chora,
não chore nunca mais,
não adianta, eu tenho
um beijo preso na garganta,
a vida é assim mesmo,
com açúcar, com afeto,
todo mundo homenageia
januária na janela,
já conheço os passos
desta estrada, sei,
serei feliz de novo,
meu povo, minha flor,
meu bebê,
será que você não vê,
não houve nada, aeronaves
seguem pousando
sem você desembarcar,
agora você vai embora
e eu não sei o que fazer,
faz mais uma vez comigo,
eu te peço,vem,
diga que você me quer,
por que eu te quero soprou,
não sou desses homens,
se você vier
me perguntar
por onde andei,
e todo caminho deu no mar,
quando a ma´re secar,
quando olhaste bem
nos olhos meus,
quando o meu mundo
era mais mundo,
quando eu
me encontrava preso,
quando eu voltar à Bahia,
quando, seu moço,
quando o Eva passar,
quando você se separou
de mim,
quando eu vim
pra esse mundo,
quando eu passo
em frente à casa dela,
quando eu tô triste,
quando eu to feliz,
quando eu não tenho motivo
pra beber
eu encho a cara de bebida,
enquanto o fole
vai tocando e vai gemendo,
depois de ter você,
eu fico pedindo atenção,
por que é que
a gente é assim,
por que é que você olha
pra onde eu não ando,
por que me arrasto
aos seus pés,
por que me dou tanto assim,
por que é que você anda
pra onde eu não vejo,
onde fica a tua casa,
por que não peço em troca,
estou de volta
pro meu aconchego,
querendo sentir
o seu cheiro,
um cheiro de mato,
de mato bom,
o aroma que exala
das mais lindas rosas,
de tudo que é nego torto,
de que calada maneira,
como se fosse a primavera,
e eu morrendo,
que nem jiló,
sua cartilha tem o a
de que cor,
é tudo uma questão
de manter
a mente quieta,
o meu catavento
tem dentro o que há
do lado de fora
do seu girassol,
como um girassol,
flor amarela,
flor de uma longa espera,
a carne arde,
a tarde cai
no abismo das esquinas,
no seu corpo
é que eu encontro,
eu procurei, procurei,
pra você ver
que eu procurei,
eu procurei fumar cigarro
Hollywood que a televisão
me disse que é o cigarro
do sucesso, eu sou sucesso,
não posso sentir cheiro
de lasanha, ainda me lembro
do claro da aurora,
se você fosse sincera,
não sei não,
assim você acaba
me conquistando,
se Deus quiser,
diz que Deus diz que dá,
o deus que mora
na proximidade
do haver avencas,
Deus dos sem deuses,
Deus do céu sem deus,
o diabo é o pai do Rock,
é pop,
o pop não poupa ninguém,
o papa, meu pai me disse,
meu filho tá muito cedo,
eu tenho medo que você
case tão moço,
eu me casei e veja
o resultado, eu to
atolado até o pescoço,
até quando
vai ficar usando rédea,
rico, pobre, classe média,
de media noche,
a toda hora,
mora na filosofia,
um alo, um elo,
alô alô marciano,
aê patrício, pára com isso,
paranóia delirante,
eu tive um sonho,
vou lhe contar,
eu venho lá do sertão,
prepare seu coração,
toda vez que eu viajava
pela estrada de ouro fino,
toda sexta feira,
toda roupa é branca,
todo mundo é baiano
junto,
levando o meu corpo
excitado
a se encantar,
insigne o homem,
cantando a jardineira,
pegou a camisa,
a camisa amarela,
ele falava nisso todo dia,
ele tomou parati,
baixo astral,
vou pra porto alegre,
tchau,
vai ver se
eu to lá na esquina,
nas paralelas
dos pneus nágua das ruas,
são duas estradas nuas,
lua de cristal
que me faz sonhar,
terra, por mais distante,
chorando eu te peço
um beijo,
amor,
vem matar essa paixão
que me devora o coração,
vem matar meu desejo,
você vai sorrindo
e cantando
atrás do coral negro,
atrás da verde e rosa,
atrás do trio elétrico,
e nem me liga, me chama,
me chama, me chama,
nem que o mundo
caia sobre mim,
nem luxo nem lixo, quero,
quero ser chamada
de querida,
divina e graciosa,
estátua majestosa
do amor, por deus
esculturada,
formada com ardor,
minha felicidade
é um crediário
das Casas Bahia,
ó quão dessemelhante
está e estou
do nosso antigo estado,
coração sem perdão,
quem roubou toda
minha alegria,
onde está o dinheiro,
o gato comeu,
ela comeu
meu coraçãozinho
de galinha no xinxim,
ai de mim, agora quero
ir embora,
embora não deseje o fim,
porque ela não quis
meu sorvete,
dar-te-ia um soco
no alto da sinagoga,
meu nome é ,
a gente não tem
cara de babaca,
a gente não tem
jeito de panaca,
a gente somos inútil,
terceiro,
a gente quer amar,
mulher que nega
nega o que não
é para negar,
pára de ficar
rolando o tempo,
aumentando
e alimentando vento,
eu sou pau de atiradeira,
eu sou a chuva que
lança a areia do Saara,
eu sou terrível,
eu sou mais você e eu,
eu sou um homem
tão sozinho,
eu não sei,
eu tenho vinte cinco,
eu não sei nada de química,
educação sentimental,
eu li um anúncio no jornal,
acabei de saber
que você riu de mim,
ainda me lembro
daquele beijo
spunk punk violento,
eu sou o mesmo que
você deixou,
eu sei lá se você
quis de fato saber,
eu sei que faço
isso pra esquecer,
eu tento te esquecer,
quem pode me entender,
eu sei a hora do mundo
inteiro
mas não sei quando parar,
de quase tudo um pouco
e quase tudo mal,
agora, justo agora,
como quem não quer nada,
perguntou por mim, não,
de novo não,
não vou abrir de novo
as portas pra você
do meu coração,
dentro da estrela azulada,
das sacadas dos sobrados
da velha são salvador,
eu juro que não,
nessa rua nessa rua
tem um bosque,
uma casinha branca
de varanda,
um rock para as matinées,
um dia, um adeus,
nada além de uma ilusão,
errei, sim,
ela já não gosta mais
de mim, mas eu gosto
dela mesmo assim,
que pena.
esse matagal sem fim
essa estrada
esse rio seco,
os seus olhos são
espelhos dágua,
por onde esse amor andava,
quem, pessoa secreta,
quem virá
com a nova brisa
que penetra,
não quer saber de mim,
haverá paradeiro
para o nosso desejo?
para que tanta ambição
ser teu pão
ser tua comida
nunca acreditei
na ilusão de ter
você pra mim
eu quero é viver
e esquecer,
meu coração tem catedrais
imensas
bendito que semeia
livros à mão cheia
superado uma sulipa,
inxuto,
céu pára belo
parabelo
sobre a terra,
eu quero é viver
e esquecer,
o mundo é bom,
tião,
volta,
vem viver outra vez
ao meu lado,
on
de
quer
que
vo
cê
es
te
ja,
em
mar
te
ou
el
do
ra
do,
que' imbora,
vai,
mesmo que o mundo torça
falta força
pra te segurar,
toda menina tem xoxota
e tem muito amor pra dar,
eu levei muito tempo
aprendendo a beijar
outros homens
é tempo de se pensar
o amor
pode de repente chegar
até explodir
colorido
no céu dos cinco
sentidos,
um instante, maestro,
nada no bolso
ou nas mãos,
nada mais que
tristeza e silêncio
meu pai, como vai,
diga a ele
que não se aborreça,
meninas boas vão pro céu
eu quando beijo
um amigo
certo de ser alguém
com a sua força
pra me proteger,
teu olhar,
flor na janela,
me faz morrer,
me faz entender,
como é que um filho
é tão diferente,
é estranho,
não te contar meus planos,
todo dia,
sol da manhã nos desafia,
de noite,
na cama,
penso tanto,
quase acontece,
quando acontece,
a gente esquece,
sabe quem sou eu,
eu sou o medo
do fraco
eu sou a cor do luar,
as coisas da vida,
as coisas
que você deixou,
aquela roupa
eu nem tirei,
não me deixe agora,
não me corte
os meus cabelos,
não diga não,
atenção
ao dobrar uma esquina
uma alegria,
atenção, minina,
don't know what
you're looking for,
you haven't found,
that's for sure.
Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009 ::: Creo que me voy
Acho que me rendo agora. No Blogger que é da globo ja não cabem meus arquivos, minhas fotos, fica estranho de visitar pela primeira vez e dai fica ruim de voltar. Não tem tags, eu não tenho mais dezesseis e não sei procurar os add-ons com tanta emoção. Fico com os dois mas renovo por aqui e depois lanço um livro com a minha vida de internauta, fico rico, tudo como planejado.
Welcome, bloggerman.
Postado por Pedro Laurentino, agora em
Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009 ::: Eu fiz isso pra Ana, agora Ana já não é. A gente dava uma bilôra por dia e recitava Suassuna, e isso
fazia de nós grandes amigos. Ela tinha seus projetos, eu os meus, e ela dizia que ia sentir minha falta
mas queria me ver realizado. Eu vou sentir falta dela sempre. Viva o Império da Paraíba! A arte armorial
perde uma admiradora e entusiasta aqui, mas ganha uma representante no céu.
Segunda-feira, Janeiro 26, 2009 ::: Não me canso de publicar e republicar esse recorte que alguém teve o cuidado de fazer dos livros de Saramago.
Não importa aqui as histórias, o que importa é a lírica!
Saramago, José, O Evangelho segundo Jesus Cristo,
Romance, 2 edição, Caminho - O campo da Palavra, Lisboa
1991, pp. 311-316
Passados meses, numa chuvosa e fria noite de inverno, um anjo entrou em casa de Maria de Nazaré, e foi o mesmo que se não tivesse entrado ninguém, pois a família assim como estava assim se deixou ficar, só Maria deu pela chegada do visitante, que nem teria podido ela dar-se por desentendida, uma vez que o anjo lhe dirigiu directamente a palavra, e foi assim, Deves saber, ó Maria, que o Senhor pôs a sua semente de mistura com a semente de José na madrugada em que concebeste pela primeira vez, e que, por conseguinte e consequência, dela, da do Senhor, e não da do teu marido, ainda que legítimo, é que foi engendrado o teu filho Jesus. Ficou Maria muito assombrada com a notícia, cuja substância, felizmente, não se perdeu na elocução confusa do anjo, e perguntou, Então Jesus é filho de mim e do Senhor, Mulher, que falta de educação, deves ter cuidado com as hierarquias, com as precedências, do Senhor e de mim é que deverias dizer, Do Senhor e de ti, Não, do Senhor e de ti, Não me baralhes a cabeça, responde-me ao que te perguntei, se Jesus é filho, Filho, o que se chama filho, é só do Senhor, tu, para o caso, não passaste de ser uma mãe portadora, Entâo, o Senhor não me escolheu, Qual quê, o Senhor ia só a passar, quem estivesse a olhar tê-lo-ia percebido pela cor do céu, mas reparou que tu e José eram gente robusta e saudável, e então, se ainda te lembras de como estas necessidades se manifestavam, apeteceu-lhe, o resultado foi, nove meses depois, Jesus, E há a certeza, o que se chame certeza, de que tenha sido mesmo a semente do Senhor que engendrou o meu primeiro filho, Bom, a questão é melindrosa, o que tu estás a pretender de mim é, sem tirar nem pôr, uma investigação de paternidade, quando a verdade é que, nestes conúbios mistos, por muitas análises, por muitos testes, por muitas contagens de glóbulos que se façam, certezas nunca as podemos ter absolutas, Pobrezinha de mim, que cheguei a imaginar, ouvindo-te, que o Senhor me havia escolhido para ser a sua esposa naquela madrugada, e afinal foi tudo obra de um acaso, tanto poderá ser que sim como poderá ser que não, digo-te até que melhor seria não teres descido aqui na Nazaré para vires deixar-me nesta dúvida, aliás, se queres que te fale com franqueza, um filho do Senhor, mesmo tendo-me a mim como mãe, dávamos por ele logo ao nascer, e quando crescesse teria, do mesmo Senhor, o porte, a figura e a palavra, ora, ainda que se diga que o amor demãe é cego, o meu filho Jesus não satisfaz as condições, Maria, o teu primeiro grande engano é julgares que eu vim cá apenas para te falar desse antigo episódio da vida sexual do Senhor, o teu segundo grande engano é pensares que a beleza e a facúndia dos homens existem à imagem e semelhança do Senhor, quando o sistema do Senhor, digo-to eu que souda casa, é ele ser sempre o contrário de como os homens o imaginam, e, aqui muito em confidência, eu até acho que o Senhor não saberia viver doutra maneira, a palavra que mais vezes lhe sai da boca não é o sim, mas o não, Sempre ouvi eu dizer que o Diabo é que é o espírito que nega, se no teu coração não deres pela diferença, nunca saberás a quem pertences, Pertenço ao Senhor, Pois é, dizes que pertences ao Senhor e caíste no terceiro e maior dos enganos, que foi o de não teres acreditado no teu filho, Em Jesus, Sim, em Jesus, nenhum dos outros viu Deus, ou alguma vez o verá, Diz-me, anjo do Senhor, é mesmo verdade que meu filho Jesus viu Deus, Sim, e, como uma criança que encontrou o seu primeiro ninho, veio a correr mostrar-to, e tu, céptica, e tu, desconfiada, disseste que não podia ser verdade, que se ninho havia estava vazio, que se ovos tinha, eram goros, e que se os não tinha, comera-os a serpente, Perdoa-me, meu anjo, por ter duvidado, Agora não sei se estás a falar comigo, ou com o teu filho, Com ele, contigo, com ambos, que posso eu fazer para emendar o mal feito, Que é que te aconselharia o teu coração de mãe, Que fosse procurá-lo, dizer-lhe que creio nele, pedir que me perdoe e volte para casa, aonde o Senhor o virá chamar, em chegando a hora, Francamente, não sei se vais a tempo, não há nada mais sensível do que um adolescente, arriscas-te a ouvir más palavras e a levar com a porta na cara, Se tal acontecer, a culpa tem-na aquele demónio que o embruxou e perdeu, nem sei como o Senhor, sendo pai, lhe consentiu tais liberdades, tanta rédea solta, De que demónio falas, Do pastor com quem o meu filho andou durante quatro anos, a governar um rebanho que ninguém sabe para que serve, Ah, o pastor, Conhece-lo, Andámos na mesma escola, E o Senhor permite que um demónio como ele perdure e prospere, Assim o exige a boa ordem do mundo, mas a última palavra será sempre a do Senhor, só não sabemos é quando a proferirá, mas vais ver que uma manhã destas acordamos e descobrimos que não há mal no mundo, e agora devo ir-me, se tens mais algumas perguntas a fazer, aproveita, Só uma, Óptimo, Para que quer o Senhor o meu filho, Teu filho é uma maneira de dizer, Aos olhos do mundo Jesus é meu filho, Para que o quer, perguntas tu, pois olha que é uma boa pergunta, sim senhor, o pior é que não sei responder-te, a questão no estado actual, é toda entre eles dois, e Jesus não creio que saiba mais do que a ti te terá dito, Disse-me que terá poder e glória depois de morrer, Dessa parte também estou informado, Mas que irá ele ter de fazer em vida para merecer as maravilhas que o Senhor lhe prometeu, Ora, ora, tu crês, ignorante mulher, que essa palavra exista aos olhos do Senhor, que possa ter algum valor e significado o que presunçosamente chamais merecimentos, em verdade não sei que é que vos julgais, quando não passais de míseros escravos da vontade absoluta de Deus, Nada mais direi, sou realmente a escrava do Senhor, cumpra-se em sim segundo a sua palavra, diz-me só, depois de todos estes meses passados, onde poderei encontrar o meu filho, Procura-o, que é a tua obrigação, ele também foi à procura da ovelha perdida, Para matá-la, Sossega, que a ti não te matará, mas tu, sim, o matarás a ele, não estando presente na hora da sua morte, Como sabes que não morrerei eu primeiro, Estou bastante próximo dos centros de decisão para sabê-lo, e agora adeus, fizeste as perguntas que querias, talvez não tenhas feito alguma que devias, mas isso é assunto que já não me diz respeito, Explica-me, Explica-te tu a ti própria. Com a última palavra, o anjo desapareceu e Maria abriu os olhos. Todos os filhos dormiam, os rapazes em dois grupos de três, Tiago, José e Judas, os mais velhos, a um canto, noutro canto os mais novos, Simão, Justo e Samuel, e com ela, uma de cada lado, como de costume Lísia e Lídia, mas os olhos de Maria, perturbados ainda pelos anúncios do anjo, arregalaram-se-lhe de repente, estarrecidos, ao ver que Lísia estava toda descomposta, praticamente nua, a túnica arregaçada por cima dos seios, e dormia profundamente, e suspirava sorrindo, com o brilho de um leve suor na testa e sobre o lábio superior, que parecia mordido de beijos. Se não fosse a certeza de ter estado ali apenas um anjo conversador, os sinais mostrados por Lísia fariam gritar e clamar que um demónio íncubo, desses que acometem maliciosamente as mulheres adormecidas, andara a fazer das suas no desprevenido corpo da donzela, enquanto a mãe se deixava distrair com a conversa, provavelmente foi sempre assim e nós que não o sabíamos, andarem estes anjos aos pares para onde quer que vão, e enquanto um, para entreter e fazer costas, se põe a contar histórias da Carochinha, o outro, calado, opera o actus nefandus, maneira de dizer, que nefando em rigor não é, tudo indicando que na vez seguinte se trocarão as funções e as posições para que não se perca, nem no sonhador nem no sonhado, o beneficioso sentido da dualidade da carne e do espírito. Maria cobriu a filha como pôde, puxando-lhe a túnica até à altura do que é impróprio estando descoberto, e, quando a teve decente, acordou-a e perguntou-lhe em voz baixa, por assim dizer à queima-roupa, Que estavas a sonhar. Apanhada de surpresa, Lísia não podia mentir, respondeu que sonhara com um anjo, mas que o anjo nada lhe dissera, apenas olhara para ela, e era um olhar tão meigo e tão doce que melhores não poderão ser os olhares no paraíso. Não te tocou, perguntou Maria, e Lísia respondeu, Ó minha mãe, os olhos não servem para isso. Sem bem saber se devia tranquilizar-se ou preocupar-se com o que se passara a seu lado, Maria, em voz ainda mais baixa, disse, Eu também sonhei com um anjo, E o teu, falou, ou também esteve calado, perguntou Lísia, inocentemente, Falou para me dizer que teu irmão Jesus dissera a verdade quando nos anunciou que tinha visto Deus, Ai, minha mãe, que mal fizemos então, não acreditamos na palavra de Jesus, e ele tão bom, que, de zangado, até podia ter levado o dinheiro do meu dote, e não o fez, Agora temos de ver como o remediaremos, Não sabemos onde está, notícias não deu, o anjo é que bem podia ter ajudado, sabem tudo, os anjos, Pois não, não ajudou, só me disse que procurássemos o teu irmão, que era esse o nosso dever, Mas, ó minha mãe, se afinal foi verdade que o mano Jesus esteve com o Senhor, então a nossa vida, daqui por diante, vai ser diferente, Diferente, talvez, mas para pior, Porquê, Se nós não acreditámos em Jesus nem na sua palavra, como esperas que os outros acreditem, com certeza não quererás que vamos aí pelas ruas e praças de Nazaré a apregoar Jesus viu o Senhor Jesus viu o Senhor, seríamos corridas à pedrada, Mas o Senhor, visto que o escolheu, nos defenderia, que somos a família, Não estejas tão certa disso, quando o Senhor fez a sua escolha, nós não estávamos lá, para o Senhor não há pais nem filhos, lembra-te de Abraão, lembra-te de Isaac, Ai, mãe, que aflição, O mais prudente, filha, é guardarmos estas coisas nos nossos corações e falarmos delas o menos possível, Então, que faremos, Amanhã mandarei Tiago e José a procurar Jesus, Mas onde, se a Galileia é imensa, e a Samaria, se para lá foi, oua Judeia, ou a Idumeia, que essa está no cabo do mundo, O mais provável é teu irmão ter ido para o mar, recorda-te do que ele nos disse quando veio, que tinha andado com uns pescadores, E não teria antes voltado para o rebanho, Esse tempo acabou, Como sabes, Dorme, que a manhã ainda vem longe, Pode ser que tornemos a sonhar com os nossos anjos, Pode ser. Se o anjo de Lísia, acaso tendo fugido à companhia do parceiro, veio habitar-lhe outra vez o sono, não se chegou a perceber, mas o anjo do anúncio, mesmo se se esqueceu de algum pormenor, não pôde voltar, porque Maria esteve sempre de olhos abertos na meia escuridão da casa, o que sabia sobrava-lhe, o que adivinhava temia.
Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável brutidade [45].
A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade. [45]
Cada qual tem seu monte de oliveiras e sua razão de lá ir. [49]
Todos se consumindo em alianças e traições caseiras, como é de uso nas famílias. [60]
Que a vida, ou quem nela manda, de mando certo ou indiferente, que ao mesmo tempo se faça a educação profissional e a educação sentimental. Há erro evidente nesta acumulação, provavelmente forçada pela brevidade das vidas, que não dão para que cada coisa se faça em seu tempo e descanso, com o que não ganha o ter e só perde o sentir. [61]
As porcas são como nós, têm aqui uma dobradiça, em lha cortando os bichos ficam quietos. [131]
Nos altos céus, os anjos estão debruçados dos parapeitos das janelas ou daquela varanda corrida, com balaústres de prata, que dá uma volta inteira mesmo por cima do horizonte, em dias claros vê-se bem, e apontam, e chamam-se uns aos outros, estouvaditos, está-lhes na idade, e um deles, mais graduado, vai a correr chamar dois ou três santos antigamente ligados a coisas de agricultura e pecuária, para que venham ver o que vai pelo latifúndio, um desassossego, magotes de gente escura pelas estradas, onde as há, ou pelos quase invisíveis carris do mato, a atalhar caminho, ou em linha, pela estrema das searas, como um carreiro de formigas pretas. Há muito tempo que os anjos não se divertiam tanto, os santos fazem suaves prelecções sobre plantas e animais, já a memória lhes falta um pouco, mas ainda vão dizendo como cresce o trigo e se coze o pão, e que do porco tudo se aproveita, e que se queres conhecer o teu corpo abre o teu porco, porque iguais são. A afirmação é ousada e herética, põe em causa os escrúpulos do criador, que, não sabendo que mais inventar, tendo de fazer o homem repetiu o porco, mas se tanta gente o diz, verdade será. [145]
Está neste pensar e de repente foge-lhe o rosto do alcance porque os outros dois homens puxam este e deitam-no de costas, despejam-lhe água na cara, um jarro cheio que por acaso vem fresca, tirada do fundo e negro poço, à bomba, mal sabia esta água para o que estava guardada, vinda das entranhas da terra, viajante por muito tempo subterrânea, depois de ter conhecido outros lugares, os degraus pedregosos duma nascente, a aspereza luminosa da areia, o macio tépido do lodo, a estagnação apodrecida do pântano, e o fogo do sol que lentamente a apagou da terra, para onde foi que ninguém a viu, e afinal está naquela numem que passa, quanto tempo depois, de repente caiu sobre a terra, veio do alto desamparada, bela é terra que a água vê, e se a água pode escolher o lugar onde há-de cair, pudesse ela e não haveria tanta sede ou tanta fartura quanto tempo depois, de repente caiu sobre a terra, foi viajando, decantando-se, água pura, puríssima, até encontrar o veio, o caudal secreto, a toalha neste lugar perfurada por uma bomba aspiradora, poço sonoro e escuro, e subitamente um jarro, apanhada na transparente armadilha a água, agora que destino, matar uma secura, ou não, derramam-na doalto sobre um rosto, queda brusca mas logo amortecida neste escorrer vagaroso pelos lábios, pelos olhos, pelo nariz e o queixo, pelas faces chupadas, pela testa molhada doutra água que é o suor, e assim se fica conhecendo a máscara por enquanto ainda viva deste homem. Mas a água escorre para o chão, salpicou tudo em redor e a tijoleira ficou vermelha, sem contar as formigas que morreram afogadas, salvou-se aquela maior porque vai na sua oitava viagem e não se cansa. [173]
Vede como padecem, e descalcinhos, doridos, olhai como as meninas levantam um pezinho e logo o outro a fugir do chão gelado, poriam os dois no ar se lhes crescessem em vida as asas que se diz teriam depois de mortas se tivessem a sensatez de morrer cedo. [188]
Que venha um homem ao mundo sem ter pedido, que passe de frio e fome infantil mais do que a conta, se conta pode haver, que chegando a crescido tenha a fome de redobrar como castigo por ter sido corpo capaz de aguentar tanto, e depois de maltratado por patrões e feitores, por guardas e guarda, tendo chegado aos quarenta anos disse a sua vontade, vai preso como gado para a feira ou para o matadouro, e tudo na prisão é fazer pouco de um homem, e até a liberdade é uma bofetada, um bocado de pão atirado para o chão, a ver se o levanta. Isto fazemos ao pão quando cai, tomamo-lo na mão, sopramos-lhe de leve como se lhe devolvêssemos o espírito, e depois damos-lhe um beijo, mas não o comerei já, parto-o em quatro bocados, dois maiores, dois mais pequenos, toma lá, Amélia, toma lá Gracinha, este para ti, e este para mim, e se alguém perguntar para quem foram os dois pedaços maiores, é menos do que um animal, porque um animal sei eu que saberia. [190]
Mas é uma sorte estarem escondidos os corações, se não fosse isso todos os homens seriam condenados mais cedo ou mais tarde, por sua inocência, quando não por seu crime, que é o coração um desabalado insofrido e sem comedimento. Quem fez os corações sabia pouco do ofício, mas as astúcias aprendem-se e ainda bem. [234]
Gostam de flores os pobres guardas, é porque nem tudo está perdido nas endurecidas almas. [239]
Vendem-se as pessoas por pouco. Venderem-se por pouco ou por muito não faz diferença, o mal não está em ser por tostão ou por milhão. [278]
São os homens feitos de maneira que mesmo quando mentem dizem outra verdade, e se pelo contrário é a verdade que querem lançar da boca para fora, vai sempre com ela uma forma de mentir, mesmo não havendo o propósito. [284]
Mais duradoiros são os rancores dos deuses do que dos homens. Os homens são estes pobres diabos, capazes sim de terríveis vinganças, mas a quem uma coisita de nada comove, e, se a hora é a certa e a luz propícia, caem nos braços do inimigo, a chorar esta estranhíssima condição de ser homem, de ser mulher, de ser gente. Deus, tanto faz este jeová como outro qualquer, é que nunca esquece nada, quem lhas fez paga-lhas, e por isso aí está esse infinito estendal de sexos abertos, dilatados, vulcânicos, por onde rompem sujos de sangue e mucos os novos homens e as novas mulheres, tão iguaizinhos naquela miséria, tão diferentes logo nesse minuto, consoante os braços que os recebem, os bafos que os aquecem, as roupas que os envolvem, enquanto a mãe recolhe para o interior do seu corpo a maré de sofrimento, enquanto da sua rasgada carne docemente goteja a última flor de sangue, enquanto a pele frouxa do ventre despejado se move devagar e descai em pregas, por este lado de mim começa a morrer a juventude. [294]
Estes homens e estas mulheres nasceram para trabalhar, são gado inteiro ou gado rachado, saem ou tiram-nos das barrigas das mães, põem-nos a crescer de qualquer maneira, tanto faz, preciso é que venham a ter força e destreza de mãos, mesmo que para um gesto só, que importância tem se em poucos anos ficarem pesados e hirtos, são cepos ambulantes que quando chegam ao trabalho a si próprios se sacodem e da rigidez do corpo fazem sair dois braços e duas pernas que vão e vêm, por aqui se vê a que ponto chegaram as bondades e a competência do Criador, obrando tão perfeitos instrumentos de cava e ceifa, de monda e serventia geral. [327]
De astuto e traste qualquer guarda tem que baste. [329]
Memorial do Convento [1982]
Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres. [17]
Pela casca não se conhece o fruto se lhe não tivermos metido o dente. [24]
Há gente capaz de tudo, até do que está por fazer. [47]
Deveria ser um direito do homem escolher o seu próprio nome e mudá-lo cem vezes por dia, um nome não é nada. [52]
. As gaivotas têm asas, também as têm os anjos, mas as gaivotas não falam, e de anjos nunca vi nenhum. [61]
Com perdão da confiança, só os pássaros voam, e os anjos, e os homens quando sonham, mas em sonhos não há firmeza. [63]
... alguma alma impaciente por voar, apenas à espera de que a aliviassem do lastro corporal e a pusessem de frente para o vento que vem do mar largo, ou do fundo universo, ou do último lugar de além. [63]
É fácil ver que, faltando os homens, o mundo pára. [66]
Deus não sabia no que se metia quando criou Adão e Eva [94]
O Santo Ofício, podendo, lança as redes ao mundo e trá-las cheias, assim peculiarmente praticando a boa lição de Cristo quando a Pedro disse que o queria pescador de homens. [95]
Por salvar maiores verdades se mente às vezes. [103]
O dinheiro não tem sempre o mesmo valor, ao contrário dos homens, que sempre valem o mesmo, tudo e coisa nenhuma. [109]
Maus são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem. [114]
Um homem pode ser grande voador, mas é-lhe muito conveniente que saia bacharel, licenciado e doutor, e então, ainda que não voe, o consideram. [115]
Um homem tem de saber, por si próprio, quando as mentiras já nascem absolvidas. [119]
Atrás de crença e ciência dela sempre vêm tempos incréus e ciências outras. [132]
Toda a gente sabe que a noite tem outro cheiro quando faz luar, até um cego, incapaz de distinguir a noite do dia, dirá, Está luar, pensa-se que foi Santa Luzia a fazer o milagre e afinal é só uma questão de fungar. [138]
Obra que em meio ficou não precisa envelhecer para ser ruína. [141]
Não são muitas as matérias de que os homens se servem, tudo vai é da maneira de as compor, ordenar e juntar, veja-se a enxada, veja-se a plaina, um tanto de ferro, um tanto de madeira, e o que faz aquela, esta não faz. [141]
A noite está quente. Passa gente a tocar e a cantar, os rapazes correm uns atrás dos outros, é uma peste que anda a fazer isto desde o princípio do mundo, incurável, enrolam-se nas saias das mulheres, levam pontapés e cachações dos homens que as vão escudeirando, e depois, lá adiante, respondem com manguitos e caretas, para logo dispararem noutra carreira, noutra perseguição. [148]
Que dia luminoso, quando Deus andou a criar o mundo não disse Fiat, se assim fosse teria fica o mundo todo por igual, uma palavra e basta, mas foi andando e fazendo, fez o mar e navegou nele, depois fez a terra para poder desembarcar, e em alguns lugares demorou-se, noutros passou sem olhar, aqui descansou, e, não havendo ninguém da humana espécie a espreitá-lo, tomou seu banho, por ainda se lembrarem disso é que as gaivotas se reúnem em tão grandes bandos perto da margem, continuam à espera de que Deus volte a banhar-se nas águas do Tejo, embora outras, uma vez ao menos, em paga de terem nascido gaivotas. E também querem saber se Deus envelheceu muito. [163]
Como se mostram variadas as obras das mãos do homem, são de som as minhas, Fala das mãos, Falo das obras, tão cedo nascem logo morrem, Fala das obras, Falo das mãos, que seria delas se lhes faltasse a memória e o papel em que as escrevo, Fala das mãos, Falos das obras. [165]
Que seria de nós se não sonhássemos. [184]
Dizem que o reino anda mal governado, que nele está de menos a justiça, e não reparam que ela está como deve estar, com sua venda nos olhos, sua balança e sua espada. [189]
A questão é ter padrinhos que desculpem o homicídio e mil cruzados para pôr na balança, nem é para outra coisa que a justiça a leva na mão. [189]
Quando Deus não sopra, tem o homem de fazer força. [199]
Não tentarás o Senhor teu Deus, e se o tentares não venhas depois queixar-te de que ficaste grávida. [230]
Um homem, se tem filhos, também se alimenta de ver a cara deles. [236]
O gosto que lhe dava poder olhar a direito com os seus olhos de homem os imensos olhos dos animais, imensos e mansos, onde via reflectida a sua própria cabeça, o tronco, e, lá para baixo, sumindo-se na fímbria inferior da pálpebra, as pernas, quando um homem cabe inteiro no olho de um boi, pode-se enfim reconhecer que o mundo está bem construído. [240]
Os reis são assim, têm uma honra maior que a dos outros homens, nota-se logo pela coroa. [262]
Se não houvesse tristeza nem miséria, se em todo o lugar corressem águas sobre as pedras, se cantassem aves, a vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas, por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância, que descobri-las não valeria a vida duma flor. [272]
O mundo de cada um é o os olhos que tem. [272]
Um dia se averiguará que Judas traiu por ciúme e abandono. [275]
O mundo é como uma grande sombra que vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração não resiste. [313]
Não ajudando a fama no mundo, não se alcança a celebridade no céu. [320]
Se o engenho não engenhasse maneiras de tornar fácil o difícil, mais valia ter deixado o mundo na sua primeira brutidão. [321]
Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas. [329]
Nada se confunde mais com a sombra do chão do que a carne dos homens. [329]
Nunca se sabe quando quer Deus exercer suas medicinas, por isso devem os cegos, os coxos, os paralíticos andar em permanente romaria. [333]
A maior sabedoria do homem ainda continua a ser contentar-se com o que tem, enquanto não inventa melhor. [351]
Manual de Pintura e Caligrafia [1983]
Um autômato que todas as noites sonhasse evacuar a fita perfurada do seu programa. [16]
Na pintura, vem sempre o momento em que o quadro não suporta nem mais uma pincelada (mau ou bom, ela irá torná-lo pior), ao passo que estas linhas podem prolongar-se infinitamente, alinhando parcelas de uma soma que nunca será começada, mas que é, nesse alinhamento, já trabalho perfeito, já obra definitiva porque conhecida. É sobretudo a idéia do prolongamento infinito que me fascina. [16]
Dir-se-ia que nasceu já com todas as batalhas ganhas ou que dispõe, para lutarem em seu lugar, de invisíveis combatentes que vão morrendo cuidadosamente, sem ruído, sem eloqüência, alisando o caminho, como se eles próprios fossem simples ramagens de vassoura. [17]
Não tinham muita importância para mim as diferenças: quando uma nuvem passava devagar, não havia nenhuma diferença, e quando eu depois estendia o pincel par a tela inacabada tudo podia acontecer, até mesmo a descoberta de um génio só meu. A paz estava-me garantida, o mais que viesse só poderia ser mais paz ou, quem sabe, a agitação da grande obra. Não esta espécie de rancor manso mas determinado, não esta escavação pelo interior da estátua, não este dente agudo e obstinado como o do cão que morte a trela enquanto olhar em redor ansioso, de medo que regresse quem o prendeu. [20]
... entendendo-se por relações sexuais tudo aquilo que se passa numa cama, ou no que ocasionalmente a substitua e que pode ser a sua própria ausência, entre duas ou mais pessoas de sexo diferente, ou do mesmo sexo, que decidem investigar com qualquer parte do seu corpo o sexo do outro. [41]
E esse foi provavelmente o grande erro: julgar que a verdade é captável de fora, com os olhos só, supor que existe uma verdade apreensível num instante e daí para diante tranquilamente imóvel, como nem mesmo a estátua o é, ela que se contrai e dilata à mercê da temperatura, que se corrói com o tempo e que modifica não só o espaço que a envolve como, subtilmente, a composição dochão onde assenta, pelas ínfimas partículas de mármore que vai soltando de si, como nós os cabelos, as aparas das unhas, a saliva e as palavras que dizemos. [78]
Como pôr tudo isso num retrato, como pôr tudo isso, também, num manuscrito? A minha arte, enfim, não serve para nada; e esta caligrafia, para que serve ela? [79]
Disse que não gosto da minha pintura: porque não gosto de mim e sou obrigado a ver-me em cada retrato que pinto, inútil, cansado, desistente, perdido, porque não sou Rembrandt nem Van Gogh. Obviamente. [79]
Mas, quem escreve? Também a si se escreverá? Que é Tolstoi na Guerra e Paz? Que é Stendhal na Cartuxa? É a Guerra e Paz todo o Tolstoi? É a Cartuxa todo o Stendhal? Quando um e outro acabaram de escrever estes livros, encontraram-se neles? ou acreditaram ter escrito rigorosamente e apenas obras de ficção? e como de ficção se parte dos fios da trama são história? Que era Stendhal antes de escrever a Cartuxa? Que ficou sendo depois de a escrever? E por quanto tempo? Não passou mais de um mês desde o dia em que comecei este manuscrito, e não me parece que seja hoje quem era então. Por ter somado mais trinta dias ao meu tempo de vida? Não. Por ter escrito. [79]
Quem muito quer conservar as amizades vive sobressaltado no temor de as perder e a toda a hora a elas se ajusta, como a pupila obedece à luz que recebe. [81]
Juraria que lágrimas não houvera, se durante um tempo não reconstituível, nem recordável como tempo, nem recontável, não tivesse havido entre mim e o mundo exterior uma cortina trémula e rebrilhante, como se eu estivesse no interior de uma gruta e em frente dela caísse uma cascata, grossas e replandecentes cordas de água, mas sem rumor, a não ser no interior dos olhos este zumbido, que é o da lágrima ardendo. [90]
Decido continuar a escrever, talvez a minha vida, a passada e esta de agora, talvez a vida, porque dela de repente me parece mais fácil falar do que da minha própria. [91]
Estas coisas que escrevo, se alguma vez as li antes, estarei agora imitando-as, mas não é de propósito que o faço. Se nunca as li, estou-as inventando, e se pelo contrário li, então é porque as aprendera e tenho o direito de me servir delas como se minhas fossem e inventadas agora mesmo. [92]
Transcrevendo, copiando, aprendo a contar uma vida, de mais na primeira pessoa, e tento compreender, desta maneira, a arte de romper o véu que são as palavras e de dispor as luzes que as palavras são. [94]
O sorriso está primeiro, depois vem o riso, a seguir a gargalhada. A religião é o quarto lugar da escala. Quem puder entender, que entenda, como dizia o filho do carpinteiro quando propunha adivinhas aos amigos. [108]
O homem sem talento é tão invulnerável como o génio, talvez mais do que ele, mas não foi provado que a sua vida seja menos útil. [109]
Lição importante: nada se deve escrever uma vez só. [129]
Tudo é vida vivida, pintada, escrita: o estar vivendo, o estar pintando, o estar escrevendo: o ter vivido, o ter escrevido, o ter pintado. E o antes de tudo isto, o mundo ainda deserto, esperando ou preparando a vinda do homem e dos outros animais, todos os animais, as aves de carne macia, e penas, e cantos. Um enorme silêncio sobre as montanhas e as planícies. E depois, muito mais tarde, o mesmo silêncio sobre montanhas e planícies já diferentes, e também sobre as cidades vazias, algum tempo ainda com papéis soltos rolados pelas ruas por um vento interrogativo que sai para o campo sem resposta. Entre as duas imaginações, a que o antes requer e a que o depois ameaça, está a biografia, o homem, o livro, o quadro. [132]
Às vezes, contamos certo, mas o acerto é muito maior quando inventamos. A invenção não pode ser confrontada com a realidade, logo, tem mais probabilidades de ser exacta. [134]
É difícil olhar para uma pessoa a quem quisemos, não importa por que razões, e dizer: "Agora já não te quero." [134]
Eis a longa história (não a pré-história) da continuidade material dos homens. Durante milhões de anos, milhões de milhões de homens nasceram da terra e para ela voltaram. O húmus terrestre já é muito mais poeira humana do que crosta original, e as casas em que vivemos, feitas do que da terra saiu, são construções humanas, no sentido rigoroso de humano, feitas de homens. Por isso eu escrevei que o crânio de meu pai era como uma pedra de construção. [199]
Após esta viagem de escrever tantas páginas, fez-se-me convicção que devemos levantar do chão os nossos mortos, afastar dos seus rostos, agora só osso e cavidades vazias, a terra solta, e recomeçar a aprender a fraternidade por aí. [200]
Tal como a cobra, largamos a pele quando nela não cabemos, ou então vêm a faltar-nos as forças e atrofiamo-nos dentro dela, e isto só acontece aos humanos. [241]
Uma porta é, ao mesmo tempo, uma abertura e aquilo que a fecha. [241]
Escolhem-se palavras, frases, partes de diálogos, como se escolhem cores ou se determina a extensão e a direcção das linhas. [263]
O paraíso é estar nu e saber. [270]
Um pincel é assim como um bisturi. [273]
Eu creio que não valeremos muito como artistas (e, obviamente, como homem, como gente, como pessoa) se, encontrada por sorte ou trabalho a coisa procurada, não continuarmos a levantar o resto das tampas, a arredar as pedras, a afastar as nuvens, todas, até ao fim. Lembremos que a primeira coisa pode ter sido ali posta apenas para nos distrair da segunda. Verificar, simples opinião minha, é a verdadeira regra de ouro. [276]
Terça-feira, Janeiro 20, 2009 ::: Eu dizia em 2006, e mais uma vez:
São Sebastião crivado de flechas, meu menino padroeiro, a ti damos louvores, Grande Mártir!!!
É assim que cantamos lá em casa e a voz de Tia Cé é a única que minha memória guarda, onde quer que eu esteja.
Bem aventurados os que choram, porque serão consolados!
A ti Santo hoje damos louvores
Grande Mártir São Sebastião
Que na terra enfrentastes horrores
Indo a Glória reinar em Sião.
Três batalhas tremendas vencestes;
a bastança, a grandeza, o prazer.
Três triunfos que bem merecestes,
Tríplice Glória que sempre hás de ter
Protetor desta terra querida,
vem livrar-nos dos flagelos mortais.
Dai-nos paz pura e santa vida
Para a Glória reinar imortal.
Segunda-feira, Janeiro 19, 2009 ::: Minha Terra Tem Palmeiras
Não queria dizê-lo tão brevemente, assim de letra corrida e recado sem portador, mas me conhecendo bem, pensando em tudo
como estou pensando agora, não há remédio. É amanhã o dia glorioso de São Sebastião, meu coração já conformado escuta
a procissão dizendo "também sou teu povo, Senhor, estou nesta estrada"... povo de Deus rico de nada, lhes bastava Deus.
Quando os foguetes estourarem, eu queria estar naquela fila peregrina, agradecendo e abraçando, sem nada pedir. Eu queria
repetir a tríplice glória do nosso santo padroeiro e silenciar para ouvir as notas subindo as escadas da igreja, queria
ter estado lá desde muito antes para ir preparando tudo, rezando a novena, brincando as festas. A vida é assim. Venceremos,
já me diz Batista, venceremos.
Mas eu queria, porque na multidão que segue o andor eu poderia ir sem a vergonha que me dá de
já não saber os nomes e não reconhecer a todos, e eu poderia ir ali oculto e me sentindo em casa mais uma vez. Eu ia explicando
tudo a Michele e deixando ela perguntar pra eu me sentir Olímpico e sabidão. Não vai dar, mais esse ano e a gente aqui distante
de tudo, sem notícia de leilão nem de nêga de fogo nem de tanque grande nem de nada, como se essas coisas primordiais da
natureza não fizessem girar o mundo e não segurassem o céu sobre as nossas cabeças. Venceremos.
Sábado, Janeiro 17, 2009 ::: Dinda, um texto lindo pra você:
Não é à toa que Florbela Espanca é
portuguesa!
Barco Negro, Amalia Rodrigues
De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.
Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:
São loucas! São loucas!
Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.[Bis]
No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.
Segunda-feira, Dezembro 29, 2008 ::: Feliz Ano Novo
Quem manda aqui é Zé de Alencar, nessas praias de areia alva como a brancura da Asa Branca, moças felizes, moços alegres, ypioca, panelada, Maria Isabel, Baião de Dois. Estou em Fortaleza, capital do Ceará. Espero ter fígado para chegar ao Ano Novo, que está longe longe ainda do ponto de vista de onde eu estou, mirando ali aquela siriguela e o copinho do pé do litro. Deus é bom.
Este foi um grande ano, cheio de coisas superlativas: uma grande viagem, uma grande dor, muitas conquistas, a luta. Faz um ano, estava hoje em Saint Martin de Ré, acordando num hotel quatro estrelas (o céu da França tem uma estrela a menos), café com croissant e café Latte, partida para La Rochelle, depois Lisboa, todo aquele mundo, Porto, Barcelona, Retour à Paris. Em poucos dias perdemos Tia Teco para sempre, e eu espero enfim que todas as promessasde Deus se realizem e eu chegue no céu um dia comendo o chimango que ela amassou, chegando da feira com todos aqueles cheiros e os mimos que comprou só pra mim, coquinho, requeijão, tijolo de doce de leite. Isso eu sei que é mais que fé.
Decidi coltar pra casa imediatamente,e saímos da Irlanda direto para arrumar as malas em Paris e fazer uma longa viagem até Ibiassucê. Despedi dos alunos tão queridos, de Carolina que tudo fez por mim, daquelas coisas francesas. Cheguei em casa no maior dos calores, fui ver os avós, reconstruir tudo sabe Deus como. Estamos tentando ainda. Fomos direto para a pós com um objetivo novo, retomamosi o trabalho e a casa. Como é bom poder tocar um instrumento.
Com sorte estivemos aqui no Ceará em Abril, de volta a Ibiassucê no São João e quando já estávamos aprontando as malas, fomos aprontar a casa para as visitas. O Natal já estava à porta, e já foi. Este foi um ano grande e rápido, sem tempo para pensar muito, mas sentindo tudo muito forte.
Que o Ano que vem seja como a vida, a vida é assim, não sabemos mais nada. Estou aqui no Ceará e aproveitando muito bem, em casa é assim e é bom. Um grande abraço a todos, que Deus nos conceda a maravilha de reussir. Ao dicionátrio francês-português, senhores.
Sexta-feira, Dezembro 12, 2008 ::: A gente morava ali, dentro da foto, num dos apartamentos sobre a moça de verde e vermelho, girando a foto para a direita. Nas outras imagens, fotos panorâmicas do Boulevard Ornano, no Norte, rua de mendigos, negros, chineses e brasileiros recém chegados. De repente mergulhei nesta pequena lembrança, como pelo sentimento de estar distante de algo que agora eu também sou, que são essas imagens e o que pude me encontrar nelas, não a torre nem os corredores do Louvre. Viva o Google, e logo logo vão fazer fotos assim de Ibiassucê também!
Aux Feuillantines, você se lembra, dindinha, morou Victor Hugo, mas isso foi antes de Haussmann.
Sábado, Dezembro 06, 2008 ::: Lately, Stevie Wonder Conhecida por aqui na voz de Gal ( Nada Mais), é
um dos poucos casos de música que soa em qualquer idioma.
Lately, I have had the strangest feeling
With no vivid reason here to find
Yet the thought of losing yous been hanging
round my mind
Far more frequently youre wearing perfume
With you say no special place to go
But when I ask will you be coming back soon
You dont know, never know
Well, Im a man of many wishes
Hope my premonition misses
But what I really feel my eyes wont let me hide
cause they always start to cry
cause this time could mean goodbye
Lately Ive been staring in the mirror
Very slowly picking me apart
Trying to tell myself I have no reason
With your heart
Just the other night while you were sleeping
I vaguely heard you whisper someones name
But when I ask you of the thoughts your keeping
You just say nothings changed
Well, Im a man of many wishes
I hope my premonition misses
But what I really feel my eyes wont let me hide
cause they always start to cry
cause this time could mean goodbye, goodbye
Oh, Im a man of many wishes
I hope my premonition misses
But what I really feel my eyes wont let me hide
cause they always start to cry
cause this time could mean goodbye
Domingo, Novembro 30, 2008 ::: Três vezes Pessoa,
porque Raul entende das coisas.
[Num Dia Excessivamente Nítido]
Alberto Caeiro
Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas idéias.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.
ANIVERSÁRIO
Álvaro de Campos
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
PARA SER GRANDE
RICARDO REIS
Para ser grande, sê inteiro: nada
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
Lembrando Portugal, que cabe inteiro em meu coração...
1.
Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
2.
Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
3. INTERVALO
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
Terça-feira, Novembro 18, 2008 ::: Les cyclopes du savoir
La suffisance des spécialistes manque de courtoisie. Ceux qui connaissent parfaitement leur domaine condescendent rarement à s’exposer à la critique d’autres disciplines ; ils se prononcent souverainement sur leur objet d’étude, sans tenir compte du reste.
Kant les appelle des cyclopes. Il y en a de toutes sortes : de la littérature, de la géométrie, des sciences de la nature, de l’histoire. Pourquoi cyclopes ? Non parce qu’ils sont très forts, mais parce qu’il leur manque un oeil. Spécialistes de leur objet, ils jugent en effet superflue toute réflexion venue de l’extérieur.
Tel biologiste voudra s’arroger le discours sur l’homme. Fort de la théorie de l’évolution et de l’observation des moeurs des grands singes, il se croit seul autorisé à définir l’humain, l’animal et à se prononcer sur la validité de cette distinction. Mais prête-t-il assez attention aux limites de sa méthode ?
Le vivant est étudié à partir des propriétés de la matière. Est-ce à dire qu’il ne soit que matière ? Et en quel sens la matière est-elle réelle ? Voit-il ces questions ? Le savant qui ignore tout de l’idéalisme et du matérialisme philosophiques risque de faire le métaphysicien sans le savoir, cyclope en cela.
Soyons justes, il arrive aussi que manque aux philosophes l’oeil de la science. Ce qui les rendra tout aussi insupportables. Aux uns et aux autres fait défaut l’humanité de la connaissance, qui est le bon goût ou l’élégance de tenir compte sérieusement du jugement de tous les savoirs.
Sexta-feira, Novembro 14, 2008 ::: “Não sou de botar melancia no pescoço”
Levi Vasconcelos, do A TARDE
>> Geraldo diz que, se ele fosse Wagner, rompia com PMDB
No meio do fogo da reforma administrativa que começou com a troca do companheiro Geraldo Simões pelo pepista Roberto Muniz, no comando da Secretaria da Agricultura, o governador Jaques Wagner (PT), concedeu entrevista ao repórter Levi Vasconcelos, de A TARDE. "A reforma vai continuar”, garantiu Wagner.
A TARDE Essa reforma que o senhor iniciou vai até onde?
Jaques Wagner | A reforma não tem tamanho predeterminado, a reforma da Secretaria da Agricultura teve um cunho eminentemente político, de ajuste político da nossa base. Eu já vinha conversando com o PP, entrou a campanha eleitoral, que não é o mais apropriado para você fazer ajustes. Terminado o período eleitoral, como as coisas já estavam muito maduras antes, então concretizamos essa mudança, que é importante. Óbvio que o indicado tem que ter, como tem Roberto Muniz, qualidades para tocar uma secretaria da importância da Secretaria da Agricultura e é importante também porque, apesar da relação muito boa com os deputados estaduais e federais do PP, agora há um processo de formalização que evidentemente é bom para a base do governo e é importante também, tenho certeza, para a base do PP.
AT | A saída de Geraldo Simões da Secretaria da Agricultura, gerou insatisfações dentro do PT, já que o contemplado foi Roberto Muniz, adversário de Moema Gramacho nas eleições de Lauro de Freitas. Como o senhor está encarando essa reação do PT?
J.W | Com naturalidade. Evidentemente que só eu posso, como governador, ter a dimensão de todas as responsabilidades que tenho de ajudar a fortalecer todos os partidos da base, inclusive, é claro, o meu partido, de ajudar a fortalecer os aliados, prefeitos e prefeitas, e, junto com isso tudo, fazer uma gestão que melhore a qualidade de vida das pessoas. É claro que ninguém gosta de sair. Todo mundo gosta de chegar, de entrar. Por isso a responsabilidade é minha. Minha posição em relação a Lauro de Freitas foi pública e eu disse ao PP desde a primeira hora que, se dependesse de alguma modificação na minha posição em relação à disputa eleitoral de Lauro de Freitas, eu não teria condições de conversar, pois o meu compromisso era com Moema e esse compromisso foi honrado. A vitória aconteceu. Eu não trabalho com veto. Eu estou convidando um partido, convidei o PP e disse claramente a ele que não faria vetos a nomes, a não ser que o nome apresentado não tivesse as qualidades próprias que o cargo demanda. Então, eu acho que é natural. O PT tem uma ampla participação no nosso governo. É claro que as pessoas reclamam, eu encaro com naturalidade, porque gerir uma coligação de 13 partidos é difícil, mas eu tenho certeza que o PT, com toda a postura que tivemos na eleição e pela minha história, reclama agora mas estaremos juntos nessa caminhada.
AT | O PR terá uma secretaria também?
J.W | Essa discussão aconteceu no início do ano, dentro dessa mesma política de ampliação da nossa base, pois eu digo sempre que você cresce na política juntando, não espalhando. Sou um homem de negociação, de busca do entendimento. Realmente conversamos com o PR, depois houve modificação na direção do PR estadual, houve a criação interna do PR, um movimento na gestão interna dos partidos, houve um tensionamento dentro dessa gestão e acabou vindo o período eleitoral - eu não ia fazer modificação no período eleitoral, e as conversas não se concluíram. Nossa relação continua muito boa, com vários com deputados federais e estaduais, se essa negociação evoluir, eventualmente essa participação pode se dar. Eu nunca vou fechar a porta, porque já procurei o PR. Repito: essa mudança na direção estadual do PR dificultou esse relacionamento, mas pode ser retomado.
AT | PDT e esses outros partidos, governador... Algumas pessoas dizem que o governo estaria conversando com integrantes do PDT, o presidente diz que não. Como o senhor pretende conduzir o PDT e PRP, que estão formando um bloco na Assembléia?
J.W | Com o PRP nós temos uma conversa bastante adiantada. O PDT da Assembléia é um partido ao qual tenho de agradecer, porque tem tido uma postura de alinhamento, de nos ajudar na condução. Eu diria que são companheiros que estão na base de sustentação do governo. Porque há uma diferença entre a bancada e, evidentemente, a direção do partido. No caso da direção do partido, do PDT, que não tenho nada contra, é um partido com que me relaciono, sou amigo do ministro Carlos Lupi, tenho uma relação com o deputado Severiano Alves, com pessoas como Brust, que é da direção do partido... Mas, no episódio da eleição de 2006, nós realmente tivemos alguns ruídos de comunicação. Eu fiz um acordo, na época, com a figura mais proeminente do PDT, que era o prefeito João Henrique, e fizemos um acordo: a nossa coligação não lançava senador e, em tese, a coligação do PDT não lançaria candidato a governador. A gente faria um acordo cruzado, já que pela lei não poderia se ter todos na mesma chapa . Nós cumprimos a nossa parte, infelizmente não por culpa do prefeito, mas o PDT entendeu que tinha de lançar um candidato a governador, então ficou esse ruído. Eu fiz a campanha na parceria com o candidato, agora senador, João Durval, e na parceria com o prefeito João Henrique, e o PDT dentro de uma outra candidatura ao governo estadual. Então formalmente o PDT não fez a nossa campanha, apesar de termos feito a campanha do senador João Durval. Passada a eleição, tentamos retomar o contato, mas de novo havia ruído dentro do PDT – não costumo me meter em vida partidária – de que eu estava atendendo a João Durval, não estava atendendo ao PDT. Eu estabeleci um relacionamento com os deputados do PDT, mas não tenho nenhuma dificuldade de conversar institucionalmente com o PDT partido.
AT | O governo parece estar tendo problemas na parte administrativa. Alguns críticos atribuem isso a problemas de gestão ou problemas da própria estrutura organizacional. Um desses problemas está na Conder. Como o senhor pretende encarar essa questão, se é que o senhor vê isso como problema...
J.W | Nós temos um portfólio de execuções de 1 ano e 11 meses que é extremamente positivo. Eu poderia falar de um milhão de pessoas atendidas no Água para Todos, de 171 mil pessoas formadas no Topa, de seis mil casas entregues, do número de poços artesianos construídos, como há muito tempo não se fazia no Estado, de um volume de estradas recuperadas e melhoradas, ligação do Luz para Todos muito mais ampla do que era, do aumento do número de leitos, do número de postos de Saúde da Família, do aumento da contratação de médicos. Evidentemente, nós sempre queremos mais e melhor. Na Segurança, estamos fazendo um processo que se conclui com a chegada de novos 3.200 policiais; no funcionalismo público, sempre a expectativa é maior do que a gente paga, mas tenho certeza que houve um avanço em relação ao passado, ainda que não tenha atingido o que se esperava no processo eleitoral. As pessoas percebem que as coisas estão melhorando. Mas às vezes as pessoas tentam fazer generalizações sem ter elementos concretos. Vou dar um exemplo muito recente, até porque envolve esse mesmo órgão de comunicação. Eu não acho que sejam inteiramente verdadeiras algumas informações sobre o incêndio da Chapada colocadas pelo jornal. Nós tivemos trabalho preventivo, nunca se colocou um equipamento e uma equipe tão grandes, óbvio que pode ter sido insuficiente para o tamanho do drama, mas é bom lembrar que os EUA também tem em função da seca incêndios florestais que consomem pedaços de cidade inteiros. Não estou satisfeito com o que aconteceu, estou triste com a perda da biodiversidade. Mas houve uma operação bastante grande, que continua lá. Problemas, evidentemente, nós temos. Pituaçu virou uma referência de problema porque as pessoas fizeram um planejamento equivocado. No afã de atender à população, projetaram para um tempo que era impossível realizar. Não é meu tipo demonizar nenhum gestor(...) Não sou de pendurar melancia no pescoço, absorvo as críticas com tranqüilidade. Mas não demito nem secretário nem auxiliar meu pela imprensa nem por causa da imprensa. Demito auxiliar meu quando entender que ele não corresponde às minhas necessidades. As criticas são muito bem-vindas quando são verdadeiras.
AT | Por falar nisso, há uma queixa muito grande no mundo político contra o secretário Rui Costa. Algumas pessoas dizem que Rui é Jaques Wagner, da sua estrita confiança. Rui é “indemitível”?
J.W | Rui Costa é um companheiro de caminhada de 25, 28 anos. Realmente, uma pessoa da minha mais absoluta confiança, política, ética. Eu, como já sentei na cadeira que Rui está sentado, só que trabalhando para o presidente, sei do desgaste que é construir uma relação política com 417 prefeitos, com 39 federais, com 63 estaduais, com secretários, com movimentos sociais, então não é um trabalho fácil. Muitas vezes a pessoa apanha em nome do governador. Problemas sempre vão existir. Ele faz um trabalho que considero com resultado positivo. Ele está falando em ampliar sua equipe e, portanto, eu diria que, se ele quiser sair da articulação política, porque é um trabalho desgastante, eu só tenho agradecer o trabalho que ele vem fazendo.
AT | Um dos grandes projetos do seu governo, imbricado com o governo federal, é a ferrovia Leste-Oeste. Quando é que o povo do Estado da Bahia vai ouvir os tratores roncando para realização desse sonho?
J.W | A obra da ferrovia está toda autorizada, os lotes já foram anunciados para licitação, eu creio, segundo as palavras do presidente da Valec, empresa do Ministério dos Transportes que está tocando isso, que ainda esse ano a licitação vai sair. Continua comprometido que começa do Oceano Atlântico para a região de Brumado e Caetité. Quero acreditar que no próximo ano a gente já começa a ver preparação e trilhos chegando.
AT | Salvador vai receber no próximo mês chefes de Estado de 33 países latino-americanos, como a Bahia está se preparando para isso e que o senhor espera que a Bahia ganhe com isso?
J.W | Essa vai ser a maior cúpula de chefes de Estado que a Bahia já recebeu. São três grandes reuniões, a cúpula do Mercosul, a cúpula da Unasul, que são os países sul-americanos e, finalmente, a cúpula Latino-americana e do Caribe, que é do México para baixo, passando por todo o Caribe até a Argentina, completando 33 chefes de Estado. É a maior reunião já feita na América Latina e o Caribe sem patrocínio externo, toda ela patrocinada pela própria região.
Quarta-feira, Novembro 12, 2008 ::: Em português de Portugal, do Diário de Notícias de Lisboa
"Sem crise financeira internacional, o BPN podia salvar-se", diz Constâncio
Parlamento. Governador do Banco de Portugal recusa qualquer falha na supervisão
O Governador do Banco de Portugal (BdP) recusou, ontem, na Assembleia da República, qualquer falha de supervisão na iminente falência do Banco Português de Negócios (BPN) que forçou a nacionalização. Pelo contrário, se não tivesse sido a acção do BP, em parceria com uma denúncia anónima, os problemas do banco não tinham sido identificados. "Considero que nem os auditores nem os serviços do Banco de Portugal podem ser considerados responsáveis por não terem descoberto as realidades ocultas. Só uma denúncia e a insistência do Banco permitiu descobrir", disse Vítor Constâncio aos deputados presentes, já ao fim da noite, na comissão parlamentar de Orçamento e Finanças.
E foi mais longe: "o BdP actuou de acordo com os parâmetros legais existentes noutros países. E que não permitem detectar coisas como o caso do Banco Insular nem operações que andam em computadores portáteis. Supervisão não é espionagem", acrescentou, recorrendo a exemplos de casos de irregularidades em França e Espanha que não resultaram numa censura pública ao trabalho do supervisor. Numa referência à presidência de José Oliveira Costa no BPN, Constâncio referiu que, ao contrário de prestar os esclarecimentos pedidos pelos regulador sobre os problemas de capital e solvabilidade, "o dr. Oliveira e Costa vinha ter comigo para se queixar de excesso de supervisão". Constâncio acrescentou ainda que os problemas que o banco enfrentava até 2007 não criavam ameaças ao futuro. Só com a descoberta, no ano passado, da relação de propriedade do BPN com o cabo-verdiano Banco Insular é que a situação se degradou. E que, devido ao contexto de crise financeira que congelou a liquidez do mercado, acelerou o processo de deterioração dos capitais do banco. "Sem a crise financeira, talvez o BPN tivesse sido recuperado num plano idealizado pela equipa do dr. Miguel Cadilhe, uma equipa de pessoas íntegras, de grande experiência bancária", afirmou Vítor Constâncio. - P.F.E.
Segurança Social não fez retirada "excepcional"
O ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Vieira da Silva, assegurou ontem que não houve nenhum movimento especial de dinheiro da Segurança Social no BPN, que o Estado nacionalizou recentemente. "Não houve nenhum afluxo excepcional de dinheiro a esse banco, nem nenhuma retirada excepcional de dinheiro, foram contas que se iniciaram, que terminaram e, nessa altura, o dinheiro foi aplicado noutra conta ou para pagar prestações", afirmou o ministro. Vieira da Silva, que falava aos jornalistas no Europarque, em Santa Maria da Feira, salientou que "o Instituto de Gestão Financeira escolhe os melhores bancos para ir gerindo a tesouraria, não fica com o dinheiro debaixo do colchão, nem no cofre". "Não houve nenhum levantamento de 300 milhões de euros", assegurou, referindo--se à notícia do Público de ontem. Segundo o ministro, relativamente ao BPN, "desde o início desta década que há depósitos e aplicações da Segurança Social", acrescentando que "houve momentos em que teve mais aplicações e momentos em que teve menos". "Não houve nenhuma reacção a qualquer conhecimento de qualquer situação que possa ter existido no BPN", garantiu o ministro. Lusa
Eu publiquei uma imagem de acm derrotado, e agora vi essa de Obama antes do resultado da apuração.
A diferença está na tensão, na companhia que aguarda com ele a divulgação dos votos nos estados, a
expressão no rosto de todos, e claro, o resultado final. Enquanto ACM parecia tomar um grande porre e esparramar-se
no sofá, cercado apenas de partidários de última hora, vimos as filhas e esposa de Obama no que parece ser uma
prece silenciosa. E na mesa, água. Boa foto, sobretudo.
Por outro lado, é de festejar-se a eleição de um negro literalmente afro-americano, quase afro-latino, para a presidência
de qualquer país. Dos Estados Unidos chega ser assustador, de tão positivo. Parece que estão armando alguma. Deixando
de lado a euforia, é preciso dizer que o presidente dos Estados Unidos é o presidente dos Estados Unidos. Tem como missão
ampliar a margem de influência de seu país, desenvolver a economia interna e participar mais da economia externa. É claro que
isso pode ser feito aumentando tanto denominador como numerador, é assim que se aquece tudo, mas, na dúvida, eportar é melhor que importar e os
Estados Unidos vêm de déficits históricos que devem ser revertidos algum dia.
Pelo que pude ver no www.change.gov, Obama está determinado a estabelecer relações de diálogo no Oriente Médio, inclusive com o Irã. Bom para
Helia e Teerã, fico feliz. Espero que dê certo. Há outras preocupações, como melhorar a imagem americana, resolver o problema da habitação criado pelos subprimes, etc. A cara é de alguém que acredita muito na reverberação de seus propósitos, no estilo grandes poderes, grandes responsabilidades. Melhor assim. Deixei um recadinho lá, perguntando quando vamos ter raio laser mais barato, ou seja, quando é que vão parar de queimar o mundo e botar os carros elétricos que já existem e já estão nas fábricas para rodar nas ruas e diminuir a velocidade, os acidentes, a poluição e o lucro das montadoras. Acho que o lucro das montadoras vale menos que os acidentes, a poluição e a posibilidade de continuarmos existindo. Espero que seja idéia dele também, ó pretensão.
Enfim, não é pra comemorar, mas dá pra ficar feliz, sim.
Hoje foi de novo em Ibiassucê. Eu estava num pé de manga e quando queria voltar pra casa,
pongava num gavião que me levava. Chique chique. E outra coisa ainda se passou: Explodiram a caixa
d'água e ao invés de faltar, a água nos canos aumentou.
Só é ruim andar nu na rua e fingir que vai tudo bem....
Quarta-feira, Novembro 05, 2008 ::: [Edgar Morin - Fronteiras do Pensamento - TCA]
Em pouco tempo, poucas palavras em português e ele já está entre nós.
A todo instante há algo se passando entre os tecidos da religião, da
economia, da política e da sociedade, ou além, algo que não se percebe, como
um grande peixe nadando sob a superfície da água e não podemos ver. Eis
que vem um movimento de ajuste e na acomodação de forças muitas coisas caem por terra.
Acho que podemos viver grandes mudanças agora, mas ao contrário do que diz o PSTU,
a revolução vai ser televisionada, ao menos pra nozes. Imagine aonde vão parar aqueles SUV,
aqueles motores, aqueles plásticos pra garrafa pet. tudo vem pra gente, não se engane.
Painel solar, água tratada, carro elétrico, tudo isso tem um consumidor pronto no
quadrante Noroeste. Eles já tem tudo isso pronto e embalado, só falta trocar as linhas de produção
e vai ser logo, com benefícios dados por nós, se duvidar. Eu quero saber quando vamos ter raio laser mais barato.
Morin falou do Islã, da Pérsia e do Oriente. De esperança e humanização, do salto que é preciso dar agora que estamos
em um limite, no limite de poder e ação das democracias e do capitalismo. A metamorfose, no lugar da revolução.
Na última metamorfose de que me lembro, alguém virava uma barata incestuosa. Mas a esperança hoje respira. Que ninguém resolva
matar Obama como fez com Kennedy, e que ele seja mesmo esse jedi que dizem por aí.
Espoir.
Morin falou também sobre solidariedade, essa vocação inusitadamente francesa. Pensei na casa da solidariedade na Praça de Ibiassucê,
Entre a igreja e a prefeitura, mais alta que ambas, e em solidariedade em várias línguas onde hoje é o coreto. Construir a praça é fácil, difícil é
construir a solidariedade. Complexo como a consciência terriana. Merci, Morin.
Segunda-feira, Novembro 03, 2008 ::: Sonhei que estava em algum lugar como é Paris, Dias D´Ávila, Salvador e Ibiassucê, que cuidava do Posto de Combustíveis onde trabalha a minha esposa, que ficava aí nesse lugar, e que chegado um casal de conhecidos conterrâneos ibiassucêenses, que eu só conheço de rosto, a esposa dizia:
- Você é Pedro Laurentino, né? Moço, por que você é machista assim? É García Marquez, Florentino Ariza...
No Rodopio do sonho, fiquei entre protestos e auto-análise.
A história de Florentio Ariza é Fermina Daza. A trama do amor cinquentenário e a busca pela sua companhia. Não é por aí. Não é isso. Talvez que as mulheres tenham outra linguagem. Adélia, Cecília, Poesia. Bethânia, o espetáculo, que quer di zer o teatro. Mas não é por aí.
Para poder falar de mulheres, devo falar primeiro da que me acompanha. Talvez ela não goste, até ela ler. Michele trabalha mais que eu, mais longe que eu, ganhamos a mesma coisa e talvez eu ganhasse mais que ela se fizéssemos a mesma coisa, é assim segundo os números. Ela no meu lugar teria feito talvez aqueles cursos que eu precisaria ter feito pra ganhar mais e não quis fazer para fazer o que tinha de ser feito.
Em casa é que somos diferentes. A mulher, ao menos a minha, tem um superego, ou mauvais oeil ou obrigações que ninguém obriga, mas que ela constrói para si para cumprir o seu papel de mulher, e que representam um misto de cuidado e auto flagelação incompreensível para o homem, ao menos para mim, e que deve ter origem na infância ou na televisão, vai saber. Um homem lava os pratos. A mulher deixa a pia brilhando, sempre. Meu superego me exige trabalho, respeito e saber. Não menos irraconal que o feminino, que permite pisar no pé de quem toma o lugar na fila, o meu se converte numa incapacidade moral de ser desagradável. É feio ser mal educado, me diz o olho da maldade. Compreenda o mal deste século, me diz a voz na minha cabeça. Entenda, seu burro, me diz meu ouvido. E eu vou tentando entender e refletindo alto. O que faz dos pratos, da pia, dos lençóis da cama, algo irrelevante. E do Tao, tão distante, um objeto do lar. Deve ter origem na infância e na escola.
Também não generalizo tanto, falando de Michele e eu estou falando de nós, os indivíduos. Não os homens e mulheres do mundo. Não é por aí esse tal machismo, não tem esse machismo, se há compreensão. Talvez eu pudesse atacar as Vanity Fair, o glamour, Victoria Secrets, mas seria ainda mais injusto chamar de mulher esse mundo inteiro de imagens e cifras que circula sobre nossas cabeças. Há indivíduos muitos que dão mais ouvido a Caras que ao superego, mauvas oeil etc. e isso faz homens e mulheres, faz consumidores. Há os homens e seus carros, não se pode esquecer.
Baisons, homens e mulheres de qualquer combinação. Faisons l’amour porque isso sim é que ajuda a entender. Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome. Você tem fome de quê, você tem sede de quê?
Domingo, Outubro 26, 2008 ::: Os passos no porão, lembra da assombração....
Eu ouço essa música desde que nasci. Tá no disco Bethânia e Caetano ao vivo, gravado em Santo Amaro, lindo lindo. Minha preferida ali já foi Meu Primeiro Amor ( Você nem sequer se lembra de ouvir a voz desse sofredor ) e aí o lirismo me conquistou antes de fazer oito anos. Ia escrevendo sobre outra coisa, mas tocou aqui no karaokê e eu lembrei de fazer essa referência. Foi um espanto saber que Maninha, a música de que estou falando, que é um diálogo entre irmãos, cantada por irmãos ali naquele disco, é na verdade de Chico Buarque.
Nem tanto, Chico é capaz de tudo. Diz Bethânia que,ao cantar para Mãe Menininha "Olhos nos olhos", ela perguntou: De quem é essa música forte? - De chico. - Um homem? Um homem?
A mão da doçura já diz tudo. Depois descobri o disco Chico e Bethânia, que comemora os dez anos de carreira dela e o apogeu lá dele, e nesse disco entende-se muito mais da fraternidade deles dois. eu já disse, não ia escrever sobre nada disso, mas me peguei rastreando a memória musical pra saber desde quando eu conheço esses versos. Coisa de 1992. A gente já morava na ilha nesse tempo. Não me lembro de ouvir nada em Ibiassucê, mas sabe-se que zé do rock já não ia bem naquele tempo, tadin. Em Caetité, quando fevereiro chegar, saudade já não mata a gente. E já vou embora, mas sei que vou voltar. A gente ouvia muito Geraldo Azevedo. Lembro de ver Leandro e Leonardo descrendo de uma f1000 cabine dupla (veraneio?) em um aeroporto, agarrados pelos sertanejos ternos brancos, por entre tapas e beijos. Lembro do Rancho Fundo, bem pra lá do fim do mundo, onde a dor e a saudade. A gente sabia tudo de Chitãozinho e Xororó. Lemrbro de Adailda e Thaís ensinando pra gente, no coreto, o artista vai onde o povo está, iê iê iê, e eu achando aquilo muito muito estranho.
O cômico, segundo suassuna, é capaz das maiores artimanhas e enganações e do amor mais sincero e delicado. O sertanejo está acostumado ao lirismo desde há muito, desde os primeiros ensinamentos das escolas, dos cantadores de feira, dos cegos sanfoneiros. É por isso que "se apegamos" tanto à música, aos casos contados, às descrições superlativas. Carrement, não é que todo mundo que é de "lá" seja um aficcionado pro chico e bethânia, mas como eu sou de "lá" e sou, é de se dizer que a poesia é penetral.
Eu ia começar dizendo eu ouço essa música desde sempre e Michele nem conhece, mas não vem ao caso agora. Vai que ela conhece. O importante é essa camada musical que a gente às vezes sacode e entende o que viveu, e se distrai do que é passageiro, e das abelhas que zumbirão aí um tempo.
Sexta-feira, Outubro 24, 2008 ::: Quente, muito quente, muito quente.
Numa fila enorme de carros, me aperto entre os avaliadores e
os companheiros de sofrimento. O carro apagou, a balisa saiu perfeita,
nehuma buzina na rua, tudo ótimo pra passar, ou não.
Muita tremedeira, o bolinha secando na garagem...
Hoje é sexta feira.
Um café quente, biscoito, despertar.
Deserto da faculdade pela manhã, e eu que achava que era um privilegiado por trabalhar à tarde. É Sexta Feira na cidade da Bahia,
chego aqui e transfiro para o pen drive os filmes da nouvelle vague que Gonzague conseguiu, pego um café, um terço da turma nem chegou e já foi para
o médico.
Sexta feira, aprendi aqui, é dia de Nossa Senhora da Providência. Vem mais.
Quarta-feira, Outubro 22, 2008 ::: Mensagem enviada através da página "www.presidência.gov.br"
Sr. Presidente,
Acabo de ler a notícia que o Sr. teria divulgado não participar mais da campanha eleitoral principalmentre por se tratar de disputas "entre companheiros" em várias cidades. Sou eleitor em Salvador, sinto-me traído por sua atitude e não posso me conformar com o tratamento igual dado a Walter Pinheiro e a João Henrique. Pinheiro é fundador do PT, um filho de operários, ele mesmo um aluno da Escola Técnica. João, além de péssimo administrador e político demagogo, foi do pdt para o pmdb ao menor sinal de fraqueza e de dinheiro disponível, é caçador de cargos e jamais construiu nada para a esquerda. Se o Presidente é companheiro de João, não pode ser companheiro do PT, não pode ser companheiro de Pinheiro e não pode ser meu companheiro. Tenho comigo a carta que o Sr. enviou quando foi eleito Presidente pela primeira vez, e não consigo sequer avaliar o tamanho da decepção que me traz ver a sua atitude. Esse jogo de conveniências faz do Sr. um político igual a os piores, igual a ACM. O Sr, companheiro de João, é também companheiro de ACM Neto, contra o PT. Não deixe essa mancha em sua história, Presidente. Os trabalhadores dessa cidade precisam de você.
Sexta-feira, Outubro 17, 2008 ::: Das boas histórias:
Sebastião Nery - Palocci e o Bicho que deu
Rádio Metropole - www.radiometropole.com.br
13/10/2008 16:20:00
RIO – Era cabo do palácio Bandeirantes, quando Ademar (de Barros, o da Avenida) era governador de São Paulo. Todo fim de mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado, muito bem fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital. E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grande, fechado, bem fechado.
Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã bem cedo, o cabo levando o envelope fino e trazendo o pacote grande. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Estava ali cumprindo o seu dever.
O CABO
Um dia, o cabo não se conteve. Abriu pela ponta, discretamente, o pacote grande. Era dinheiro, muito dinheiro. Tudo nota de mil. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30, deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão escrito à mão:
“50 contos no bicho que der.”
O cabo não resistiu. Pegou uma caneta num botequim, emendou:
“50 contos no bicho que der. Aliás, 55.”
Nunca mais lhe deram o envelope fino nem o pacote grande. (...)
Segunda-feira, Outubro 06, 2008 ::: Quatro anos depois...
Eu dizia que não votava em pelego,e nunca votei. Quando eu perguntava aqui às bases por que não Pinheiro, não sabiam dizer porque o mais votado
não era o candidato. Agora sairam com essa de não penetra, etc etc. Tai. Penetrou! (ou equivalente!)
E será que vão esperar a corja perder pra síndico pra sepultar o carlismo?
E se eu contava vinte votos, posso contar duzentos.
Achado! Dicionários Angolano do Passado: aí do Angola MInha Terra
ANGOLANO não está mal, TÁ MALAIKE !
ANGOLANO não vende , PÁYA !
ANGOLANO não está mal, TÁ MALAIKE !
ANGOLANO não Viaja,SAPA !
ANGOLANO não liga Luz ,FAZ UM GATO !
ANGOLANO não é diplomata ,É NGUVULO !
ANGOLANO não escuta música, CURTE OS BRINDES !
ANGOLANO não conquista mulher alheia, TROLA !
ANGOLANO não tem moto, TEM UMA TURRUM !
ANGOLANO não é multado , É PENTEADO !
ANGOLANO não está aflito ,ESTÁ PAIADO !
ANGOLANO não difama ,ESTENDE, ZONGOLA !
ANGOLANO não tem dinheiro, tem guito, tem massa, ESTÁ BOSSANGA !
ANGOLANO não tem ressaca , Tem PELENGUENHA !
ANGOLANO não vê mulher bonita , Vê MBOA !
ANGOLANO não tem namorada,Tem GARINA...DUCHA....GADAIA !
ANGOLANO não olha,GALA, MARA !
ANGOLANO não tem traje de gala,Tem GRIFE !
ANGOLANO não pega , CANGA !
ANGOLANO não tem rabo,Tem MBUNDA !
ANGOLANO não bebe cerveja , BITOLA !
ANGOLANO não tem alguma coisa, Tem MAMBO !
ANGOLANO não passa a perna ,Faca
ANGOLANO não esturque ,Parte o braço
ANGOLANO não facilita,Dá falida
ANGOLANO não tem Mulher ou Namorada ,.Tem dama/ xkindosa/Fofucha
ANGOLANO não conquista a mulher, Dica a dama
ANGOLANO não fala,Da uma dica
ANGOLANO não e poligamo,É gajo de gajas
ANGOLANO não atende funeral, Vai ao comba
ANGOLANO não faz credito, Faz Kilapi
ANGOLANO não pensa, Banzela
ANGOLANO não vai, Tira o pé
ANGOLANO não diz: tudo bem?, Diz: Tass?
ANGOLANO não rouba, Gama
ANGOLANO não é um simples cidadao, E um granda MADIEEEEEÉ.
ANGOLANO não atrapalha, Maia
ANGOLANO não ultrapassa, Da mbaia
ANGOLANO no taxi não encosta, Emagrece,emagrece
ANGOLANO não morre, Da caldo ou da ntum
ANGOLANO não estuda, Amarra
ANGOLANO não conduz, Ele pega ou nduta
ANGOLANO não come, PITA.
ANGOLANO não bebe, CHUPA.
ANGOLANO não roça., TARRACHA.
ANGOLANO não dança, BAILA..
ANGOLANO não toma o pequeno almoço, MATABICHA.
ANGOLANO não vai a festa, VAI AO BODA
ANGOLANO não veste, TRAPA
ANGOLANO não trabalha, BUMBA
ANGOLANO não luta, BILA
ANGOLANO não curte, TCHILA
ANGOLANO não faz amor, TCHACA, CUNA, PÉRA
ANGOLANO não peida, BUFA
ANGOLANO não faz xixi, SUSSA
ANGOLANO não mente, DÁ JAJÃO
ANGOLANO não tem amigo, TEM CAMBA
ANGOLANO não goza, ESTIGA
ANGOLANO não é grosso, É CAENCHE
ANGOLANO não tem mama, TEM XUXA
ANGOLANO não vai para terra, VAI PARA BANDA
ANGOLANO não tem mau hálito, .TEM DIZUMBA MALAICA! CATINGA; FUNGUTO.
ANGOLANO não Pendura em carros, Magwela
ANGOLANO não faz a bola passar por cima, Cabrita ou dá mé
ANGOLANO não faz a bola passar entre as pernas, Dá Ova/Tchobo
ANGOLANO não tem sorte/oportunidade, Tem fezada
ANGOLANO não Dinheiro, Tem Cumbu/sujos/massa/moeadas
ANGOLANO não Viola, Ngombela
ANGOLANO não se Droga, Chuta-se
ANGOLANO não é criança, é ndengué
ANGOLANO não é mais velho/velha, é kota, papoite, mamoite
ANGOLANO não passeia, Zunga
ANGOLANO não sente frio,Sente Kawele
ANGOLANO não afunda,Smasha
ANGOLANO não faz musculação,Manguita
ANGOLANO não sai à noite, Desbunda
ANGOLANO não joga,Péla
ANGOLANO não arranja dama,Lhe Morrem
ANGOLANO não tem finta, Tem vira-vira/ desenquadro
ANGOLANO não reprova,Pica
ANGOLANO não telefona,Manda Kolmi
ANGOLANO não tem fome, TÁ Fobado
ANGOLANO NÃO COME, PÁPA
ANGOLANO NÃO É ANGOLANO, É MWANGOLÉ
ANGOLANO NÃO É REFUGIADO, É TURÍSTA
ANGOLANO NÃO é vendedor, é zungueiro
ANGOLANO NÃO tem taxi, tem candongueiro
ANGOLANO NÃO apalpa, dá kibiona
ANGOLANO NÃO fode, aleija
ANGOLANO NÃO vai comer, vai lamber
ANGOLANO NÃO tem transito, tem tá que tá
ANGOLANO NÃO peida, bufa
ANGOLANA NÃO fica grávida, fica cheia
ANGOLANA NÃO divide conta .... porque não leva carteira!
Domingo, Setembro 14, 2008 ::: Eis uma cantiga de eternos amigos
Elomar, Cantiga de Amigo
Lá na Casa dos Carneiros
Onde os violeiros
Vão cantar louvando você
Em cantiga de amigo
Cantando comigo
Somente porque você é
Minha amiga mulher
Lua nova do céu que já não me quer
Dezesete é a minha conta
Vem minha amiga e conta
Uma coisa linda pra mim
Conta os fios dos teus cabelos
Sonhos e anelos
Conta-me se o amor não tem fim
Madre amiga é ruim
Me mentiu jurando amor que não tem fim
Lá na Casa dos Carneiros
Sete candeeiros
Iluminam a sala de amor
Sete violas sem clamores
Sete cantadores
São sete tiranas de amor Pra amiga em flor
Qui partiu e até hoje não voltou
Dezessete é minha conta
Vem minha amiga e conta
Uma coisa linda pra mim
Pois na Casa dos Carneiros
Violas e violeiros
Só vivem clamando assim
Madre amiga é ruim
Me mentiu jurando amor que não tem fim.
Quarta-feira, Setembro 10, 2008 ::: Recebi esse e-mail de um amigo que envia e-mail.
O silêncio dos bons
O jovem Juscelino Kubitschek, de 12 anos, ganha seu primeiro par de
sapatos. Passou fome. Jurou estudar e ser alguém. Com inúmeras dificuldades,
concluiu Medicina e se especializou em Paris. Como presidente, modernizou o
Brasil. Legou um rol impressionante de obras e amantes; humilde e obstinado,
é (e era) querido por todos.
Brasília, 2003.
Lula assume a presidência. Arrogante, se vangloria de não ter
estudado. Acha bobagem falar inglês. 'Tenho diploma da vida', afirma.
E para ele basta. Meses depois, diz que ler é um hábito chato. Quando
era sindicalista, percebeu que poderia ganhar sem estudar e sem trabalhar -
sua meta até hoje, ao que parece.
Londres, 1940.
Os bombardeios são diários, e uma invasão aeronaval nazista é
iminente. O primeiro-ministro W. Churchill pede ao rei George VI que vá para
o Canadá. Tranqüilo, o rei avisa que não vai. Churchill insiste: então que,
ao menos, vá a rainha com as filhas. Elas não aceitam e a filha mais velha
entra no exército britânico; como tenente-enfermeira, sua função é recolher
feridos em meio aos bombardeios. Hoje ela é a rainha Elizabeth II.
Brasília, 2005.
A primeira-dama Marisa requer cidadania italiana - e consegue.
Explica, candidamente, que quer 'um futuro melhor para seus filhos'.
E O FUTURO DOS NOSSOS FILHOS?
Washington, 1974.
A imprensa americana descobre que o presidente Richard Nixon está
envolvido até o pescoço no caso Watergate. Ele nega, mas jornais e Congresso
o encostam contra a parede, e ele acaba confessando.
Renuncia nesse mesmo ano, pedindo desculpas ao povo.
Brasília, 2005.
Flagrado no maior escândalo de corrupção da história do País, e
tentando disfarçar o desvio de dinheiro público em caixa 2, Lula é instado a
se explicar. Ante as muitas provas, Lula repete o 'eu não sabia de nada!', e
ainda acusa a imprensa de persegui-lo. Disse que foi 'traído', mas não conta
por quem.
Londres, 2001.
O filho mais velho do primeiro-ministro Tony Blair é detido,
embriagado, pela polícia. Sem saber quem ele é, avisam que vão ligar
para seu pai buscá-lo. Com medo de envolver o pai num escândalo, o
adolescente dá um nome falso. A polícia descobre e chama Blair, que vai
sozinho à delegacia buscar o filho, numa madrugada chuvosa. Pediu desculpas
ao povo pelos erros do filho.
Brasília, 2005.
O filho mais velho de Lula é descoberto recebendo R$ 5 milhões de uma
empresa financiada com dinheiro público. Alega que recebeu a fortuna
vendendo sua empresa, de fundo de quintal, que não valia nem um décimo
disso. O pai, raivoso, o defende e diz que não admite que envolvam seu
filhinho nessa 'sujeira'.
Qual sujeira?
Nova Délhi, 2003.
O primeiro-ministro indiano pretende comprar um avião novo para suas
viagens. Adquire um excelente, brasileiríssimo BEM-195, da Embraer, por US$
10 milhões.
Brasília, 2003.
Lula quer um avião novo para a presidência. Fabricado no Brasil não
serve. Quer um dos caros, de um consórcio anglo-alemão. Gasta US$ 57 milhões
e manda decorar a aeronave de luxo nos EUA.
E você, já decidiu o que vai fazer nos próximos cinco minutos?
Vamos repassar esse e-mail para a maioria dos nossos contatos?
Vamos dar ao BRASIL uma nova chance?
Ele precisa voltar para o caminho da dignidade.
Nós não merecemos o desgoverno que se instalou em nosso País e
precisamos acordar e lutar antes que seja tarde.
Perca mais cinco minutos e converse com todos os seus amigos que não
têm acesso a internet.
'O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos,
nem dos desonestos, nem dos sem ética.
O que mais preocupa é o silêncio dos bons.'
Martin Luther King
Senão vejamos: Juscelino criou Brasília, levou os políticos para longe do povo, os ministérios, os corredores do lobby, o financiamento das obras.
Aprofundou a diferença entre ricos e pobres, sem falar na dívida externa.
Elizabeth II foi militar sim, mas motorista. trocava pneus na garagem da base do exército.
Tony Blair ficou conhecido como o poodle da américa ao aliar-se a Bush filho para ignorar o veto da ONU e invadir o Iraque para
encontrar armas químicas que não estavam lá. Enforcaram Saddam Hussein, antigo aliado americano, no tempo do Bush pai,
e exibiram a fita do enforcamento para o mundo.
A Índia não comprou um jato perfeitamente brasiseilo de 50 milhões, comprou 5 jatos brasileiro-americanos, de motores ingleses, cada um por 50 Mi.
Comprou também aviões de reconhecimento e patrulha, num contrato de cerca de 300 Mi. Como confirmam os jornais indianos, o Ministério da Defesa brasileiro foi quem possibilitou a negociação, e podemos dar um palpite para dizer em que avião a comitiva viajou. Em termos de Aerolula, está 550 contra 57 Mi.
Acho uma injustiça isso de usar meias verdades fora de contexto para fazer um juízo de valor "em cinco minutos" sobre uma vida de militância e oito anos de trabalho duro, diário e consistente, doa em quem doer. Lula não é uma Virgem Maria sem pecados. Mas é o presidente do reuni, do prouni, do ministro Haddad, do ministro gil, do patrimônio imaterial. Dos recordes de comércio, de diminuição da miséria e da pobreza. Vale mais do que cinco minutos de e-mail repassados.
Agora a cereja do bolo:
A tradução do que disse Martin Luther King: "A história terá de reconhecer que a tragédia desses tempos de transformção social não é o alarde dos homens maus, mas o silêncio tácito dos homens de bem."
Que os homens de bem reflitam um pouco mais antes antes de ouvir e calar.
Fita de áudio da Casa Branca: O presidente Lyndon Johnson discute o iminente golpe de estado no Brasil com o subsecretário de estado George Ball
31 de março, 1964. l) White House Audio Tape, President Lyndon B. Johnson discussing the impending coup in Brazil with Undersecretary of State George Ball, March 31, 1964
In this 5:08 minute White House tape obtained from the Lyndon Baines Johnson Library, President Johnson is recorded speaking on the phone from his Texas ranch with Undersecretary of State George Ball and Assistant Secretary for Latin America, Thomas Mann. Ball briefs Johnson on that status of military moves in Brazil to overthrow the government of Joao Goulart who U.S. officials view as a leftist closely associated with the Brazilian Communist Party. Johnson gives Ball the green light to actively support the coup if U.S. backing is needed. "I think we ought to take every step that we can, be prepared to do everything that we need to do" he orders. In an apparent reference to Goulart, Johnson states" we just can't take this one". "I'd get right on top of it and stick my neck out a little," he instructs Ball.
Nessa gravação de aproximadamente cinco minutos, ouve-se o presidente americano Lyndon B. Johnson falando ao telefone do seu rancho no Texas com o subsecretário George Ball e o secretário assistente para a américa latina, Thomas Mann. O subsecretário explica os movimentos do golpe militar que iria destituir João Goulart, visto pelo governo americano como um esquerdista próximo do Partido Comunista Brasileiro - PCB. Johnson autoriza Ball a apoiar ativamente o golpe militar, se algum suporte amercano for necessário. "Penso que devemos fazer tuo que pudermos, estar preparados para qualquer coisa que tivermos que fazer", ele ordena. Referindo-se aparentemente a Goular, diz: "Não podemos aceitar esse". Vou me aproximar e espichar meu pescoço um pouco para fora (vou me acercar e aparcer um pouco para reforçar????), diz o presidente.
Terça-feira, Setembro 02, 2008 ::: Do desacato ao funcionário:
Várias repartições em que já estive ostentam um artigo do RJU, como se fosse a tábua dos mandamentos: O desacato ao funcionário no exercício da função pública é crime punido com detenção etc. etc., sempre em letras razoavelmente legíveis e voltadas para quem adentra o ambiente. Nunca apreciei esse dístico exibido assim tão provocadoramente, embora tenha ameaçado espancar alguns alunos com o cartaz durante a matrícula. Deu-se que mais uma vez Dues encarnou-se em alguém que a faculdade lesou e veio aqui exigir uma prestação de contas, e entre professores e relatores, nós mortais temos também o nosso quinhão. Nós, os psicoatas, mal comidos e mal amados, nós analfabetos moscas-mortas. Nós também.
Ainda não é desta vez que eu penduro a sentença ali na parede, mas ando pensando em ser comissário de bordo só pra amarrar, sedar e processar os desordeiros. Afora isso, dá pra colar nas costas de algun(ma)s professore(a)s: me chute, sou medroso.
Sexta-feira, Agosto 22, 2008 ::: Há tanta coisa linda pra dizer!
Como não se emocionar, não sentir-se vitorioso, vingado, dono do mundo com o salto de Maurren Maggi, Maurren GIGA Maggi, caldo maggi para os íntimos?
Alguém, pode te acusar, te condenar, te isolar, mas ninguém consegue deter talento, determinação e vontade. Talvez só uma pequena Sofia pedindo "mamãe, eu queria a prata". Ainda bem que ela só pediu depois!
Nossa glória, nossa glória. Longe dos esportes badaladinhos, patrocinados, fechados, exclusivos de uma certa elite, nós conseguimos a disputa aberta e sincera, onde só há um critério, o ideal olímpico: mais alto, mais rápido, mais forte.
MAIS
Foi a vez de Wenders no Fronteiras do Pensamento. Grande noite. Ele começou com um "meu nome é Win Wenders, eu sou alemão e desde que nasci tento esconder a vergonha que sinto do que cometemos na segunda guerra." depois daí, tudo estava explicado. O faroeste dos seus filmes, as histórias de diferentes lugares, a atração pelos documentários, a busca por recuperar o passado. Grande noite.
Ainda
Dindinha, o amor é isso, nossa humanidade cheia de erros e imperfeitos, cheia de medo, cheia de culpa, cheia de dúvidas... CV dizia, o amor é olhar no castanho do olho de uma pessoa e não entender porque, mas o castanho desse olho nunca vai me fazer mal, é incapaz de me fazer mal. Depois CV começou a cantar ciúmes, nervos de aço e tudo se transformou, zombando do seu amor perfeito, depois começou a cantar sorvete e comeu, poque já não havia amor, os olhos castanhos se fecharam para ele, para nós, para o amor. O amor é isso, CDA, hoje beija, amanhã não beija. O amor é um acordo, córdio, do coração. Na solidão da despedia, o amor é mais. Questão de não ter mais questões, a questão essencial: vou à escola, ou amor? como, ou amor? continuo, se o amor parece acabar? É cruel o amor paulista. O amor é impaciente, é exigente, o amor arde em ciúmes, se ufana, se ensoberbece, se conduz incovenientemente, procura seus interesses, se exaspera, se ressente do mal; se alegra com a injustiça, e, desesperado, não encontra a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo padece. Arde mais o beijo do bolero que o da bossa. Nossos corações sinceros para você gritar.
Sexta-feira, Agosto 08, 2008 ::: Se eu contasse uma biografia assim: o menino de Yolandinha ganhou o mundo, conquistou seu espaço e se tornou um homem feliz, bem, se eu contasse assim a história seria vazia como o estilo de contá-la. Também poderia ser no estilo Gabo, O coronel haveria de se lembrar na amargura dos seus anos de solidão do calor da calçada em frente ao armarinho, das pedras quentes e da água de melancia colando os seus pés no chão na tarde do BrasilxCamarões da Copa de 94. Seria melhor, mas na ausência de um pelotão de fuzilamento e de anos de amargura para relembrar, não convém.
Uma autobiografia émais difícil, porque pode ser apenas um exlamação, e tudo estará dito, por que já conheço toda a história. Nova entrevista com o autor:
Pedro, faz já anos da última entrevista, obrigado por nos receber. Quais são as coisas mais antigas de que você se lembra?
Lembro com muito gosto do modo como ela se referia a ele, dizendo Caetano, venha ver o preto que você gosta. Não, isso é dona Canô e Caetano. Lembro... Lembro de um dia, eu estava tomando café e quis ir ao banheiro, pedi a nossa babá que eu não lembro o nome agora que escondesse meu pão e meu café com leite no mais alto do armário, por que meu irmão é esfomeado de nascença. O copo do café com leite era do pateta. À noite, minha mão perguntou o que era aquele copo em cima do armário, aí eu lembrei que esqueci. Foi uma das minhas primeiras metalinguagens.
Lembro que não podia gritar com Sérgio Malandro por que minha irmã estava durmindo, o nenê. Lembro que um dia minha mãe deu um estalo que fazia aniversário da morte de minha vô Maria José, e meu pai chorou no caderno de quadrinhos. Lembro que quase me afoguei nas covas de mandioca e que tive muito medo no clube porque minha mãe disse que era fundo. Lembro de ir visitar tio gripado, de tia Nana me dando côco, de tia nita me dando côco. acho que o mais antigo é minha irmã durmindo e meu irmão dizendo que Sérgio Malandro não podia me ver pela televisão.
Como foi a sua infância, onde você cresceu?
Eu nasci em Salvador, que me rende um apelido lá em casa. Fui direto pra Ibiassucê e devo ter me mudado de lá em 88 ou começo de 89. Tava no carro do pai de um amigo e ele disse que collor tinha ganhado. Um dia meu pai me disse que a gente ia morar numa casa com capim e que a gente ia ajudar a capinar, eu achei que ia morar no mato, o mato era um quintal. A gente tomava vitamina de abacate à noite e minha irmã não bebia, nem dava a vitamina dela pra ninguém, só pra minha mãe. Minha mãe dividia tudo. A gente veio de de Caetité pra itaparica depois e eu vivi. Mato, pesca, bola, manga, caju, jamelão, noite, centelha de noite. Aí fui me descivilizando, surpresa. Fomos pra muitas casas em Itaparica, praia, amigos, bicicleta, praia. Anos e anos na areia, aí fui me aprisionando. trabalho, escola, escola, escola. Cresci, e fico lembrando.
O que você quer de presente?
Os números da mega sena, pelo menos cinco. Um campus da Ufba em Itaparica. Sábado no forte. Quero um baba: eu, totó, toni, jorge, eraldo. Diego, tiago, manoel, xóxi e serginho. No grande hotel. E praia. Quero um chimango de tia teco, e um abraço que ficou faltando. (continua)
Quinta-feira, Julho 24, 2008 ::: RATP à la Bresilienne Entre as mais evidentes diferenças entre o nosso mundo e o deles, o transporte é definitivamente um ponto de inflexão.
De ajeitado pra baixo, é terceiro, no exato começa o primeiro. relojinho no ponto, fila zero, segurança, preço. Uma greve aqui e ali pra não acostumar mal, mas nem a greve deles é igual ao nosso the best. Como vamos emergindo, tá aqui uma coisa pra surpreender a todos nós, mesmo que não funcione muito bem:
Oh, je voudrais tant que tu te souviennes!!! Ali, bem no meio da foto, essa frase que eu guardei.
Ai está, e por culpa do Paris, je t'aime eu nunca lembraria que a estação é Tuileries.
Sexta-feira, Julho 18, 2008 ::: .
.
.
Eu virei por aquela curva, você pelo elevador, nos encontraremos. Tudo mais ficará sem sentido, o eixo de rotação da Terra seremos nós, que tudo fizemos por este amor desencontrado.
Quantas vezes eu vi você brilhar, quantas vezes lhe vi partir, lhe vi sepultar esse amor que agora resplandece. Tantas vezes que nem acreditava mais poder encontrar nos restos do meu coração as fagulhas dessa lembrança.
Florentino Ariza não deixou de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados e haviam transcorrido a partir de então cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias.
Everytime we say goodbye, I die a little,
Everytime we say goodbye, I wonder why a little,
Why the gods above me, who must be in the know.
Think so little of me, they allow you to go.
When youre near, theres such an air of spring about it,
I can hear a lark somewhere, begin to sing about it,
Theres no love song finer, but how strange the change from major to
Minor,
Everytime we say goodbye.
When youre near, theres such an air of spring about it,
I can hear a lark somewhere, begin to sing about it,
Theres no love song finer, but how strange the change from major to
Minor,
Everytime we say goodbye.
Cuesta abajo
Letra: Alfredo Le Pera
Música: Carlos Gardel
Si arrastré por este mundo
la vergüenza de haber sido
y el dolor de ya no ser,
bajo el ala del sombrero
cuántas veces embozada
una lagrima asomada
yo no pude contener.
Si crucé por los caminos
como un paria que el destino
se empeñó en deshacer;
si fui flojo, si fui ciego,
sólo quiero que comprendan
el valor que representa
el coraje de querer.
Era para mí la vida entera,
como un sol de primavera,
mi esperanza y mi pasión.
Sabía que en el mundo no cabía
toda la humilde alegría
de mi pobre corazón.
Ahora, cuesta abajo en mi rodada,
las ilusiones pasadas
ya no las puedo arrancar.
Sueño con el pasado que añoro,
el tiempo viejo que lloro
y que nunca volverá...
Por seguir tras de sus huellas
yo bebí incansablemente
en mi copa de dolor;
pero nadie comprendía
que si todo yo lo daba,
en cada vuelta dejaba
pedazos de corazón...
Ahora, triste en la pendiente,
solitario y ya vencido,
yo me quiero confesar;
si aquella boca mentía
el amor que me ofrecía
por aquellos ojos brujos
yo habría dado siempre más...
Quinta-feira, Julho 10, 2008 ::: Lembrando de Paris
Il y a des choses dont je n'ose pas parler, il en existe d'autres pour lesquelles je ne trouve pas des mots adéquats, bien que d’autres, si naturelles, ne tirent aucune vie lorsque nous parlons d’elles. Choses que je regrette. Ce baiser de’amour que je n'ai pas volé, cette liste des 90 thèses de Luther ne figurant pas dans le livre, bien d’autres encore. Des choses qui me rendent fier. Servir, la foi, l’amour.
Si je dis maintenant que Paris est toutes ces choses ensembles, il serait trop évident. M'en souvenir, ce n'est pas pareil. Rien de ce que j’ai fait, ou plutôt tout ce que je ne j'aurai pu faire ne changerai sans doute quoi que ce soit que Paris représente. Les dames continueraient à marcher lentement sur les trottoirs, les Arabes continueraient à vendre leur bouffe ancienne et notre huile de palme, les jeunes Parisiens poursuivreraeint avec son avant-garde et sa révolte permanente.
Je ne comprends toujours pas tout, ou comment je me sentais, et encore moins ce que je ressens avec tout cela. Peut-être qu’on n’a pas eu le romantisme pour tout laisser tomber et faire quelque chose de nouveau, peut-être que nous étions trop romantiques à vouloir tout d’âge, à souffrir tellement de nostalgie et vibrer avec la couleur et les images et les noms, tant en se surprenant avec les gens, leurs méthodes.
Paris est une alarme à midi du mercredi et la certitude d’être l'unique à en faire attention, est ne peut pas aller voir un concert monumental par complète ignorance, c'est se rendre compte la nuit à la télévision de ce qui s’est passé à deux mètres de la maison. Magie de voyager pendant des heures sous la terre, sous l’eau. être éveillé.
En souvenir, c'est une autre chose. Les incertitudes, la conclusion de l'avoir rêvé, l'impression que nous le vivons et nous sommes prêts, mais maintenant, tout devient de plus en plus lent. Paris est Narnia. Un neverland où personne ne croit et pour cela ne fait que des critiques banales. Une odeur dans l’air, le monde entier à tous les coins. Le son de tout le monde essayant Paris, l’impossible hasard.
Ici, rappelant la courbe et le bus au Châtelet devant le signe du Sarah Bernhardt, je me souviens. Si je n'ai pas manqué Paris, puis, j’ai le devoir de mémoire. Si je suis certain qu'un jour je verrai les jardins du Palais Royal et que la RATP annoncera Palais Royal, Musée du Louvre à deux tons à la ligne 1, je doit m'en souvenir, mais j’ai de plus en plus la nostalgie des petits, des voisins, les amis éternels que nous avons fait. Puisse Dieu me permettre de toujours les garder à l’esprit.
Qu'il me permettre expliquer que c’était impossible en raison de cette marée et de cette ville qui nie ce qui je suis. Cette pachorra, Charla. Que nous sommes une ébullition latine. Et qu'il me montre clairement ce qu'il faut faire avec cet amour, afin que je puisse mieux comprendre ce mirage dans ma mémoire et cette porte en face de moi. Pour que je m'en souvienne et que ça soit tout.
Há coisas que eu não ouso pronunciar, outras para as quais não encontro as palavras, outras ainda que, tão naturais, não ganham brilho algum quando se fala nelas. Chuchu não brilha, condominio não brilha, farmacia não brilha.
Coisas das quais me arrependo. Aquele beijo de amor que eu não roubei, aquela lista das 90 teses de Lutero que não apareciam no livro, tantas mais.
Coisas que me dão orgulho. Servir. Fé. Amar.
Se eu simplesmente dissesse agora que Paris é tudo isso, seria óbvio. Lembrar é que é. Nada do que eu tenha feito, tudo o que eu poderia ter feito provavelmente não mudariam nada do que Paris representa.
As senhoras continuariam andando lentamente nas calçadas, os árabes continuariam vendendo sua comida velha e o nosso azeite de dendê, os jovens parisienses continuariam com sua vanguarda e sua revolta permanente.
Ainda não compreendo tudo, nem como me senti e muito menos como me sinto com tudo aquilo. Talvez tenha faltado romantismo para largarmos tudo e fazer tudo novo, talvez tenha sobrado romantismo em procurar tudo antigo, em sofrer tanta saudade, em vibrar tanto com cores e imagens e nomes, em estranhar tanto as pessoas, os métodos, os costumes.
Paris é um alarme ao meio dia das quartas feiras e a certeza de sermos os unicos a prestar atenção, é faltar a um concerto por sermos os unicos a não saber, é saber à noite pela televisão do que se passou ali a dois metros. Magia de viajar por horas debaixo da terra, por debaixo d'água. Estar acordado.
Lembrar é que é. As incertezas, a conclusão de que sonhamos, vivemos e estamos prontos, mas agora tudo passa mais devagar do que jamais fora. Paris é Narnia. Uma terra do nunca em que ninguém acredita e por isso tratamos com duas criticas ligeiras. Um cheiro no ar de tudo, de todo o mundo a qualquer esquina. O som de todos tentando Paris, a impossível chance.
Aqui, lembrando a curva do onibus no Chatelet e o letreiro do Sarah Bernhardt, je me souviens. Se não tenho saudades de Paris, então, tenho este dever de lembrar. Se tenho certeza de que conhecerei ainda os jardins do Palacio Real e que escutarei a Ratp anunciar Palais Royal, Musée du Louvre em dois tons na linha 1, devo me lembrar, mas tenho mais pressa e mais saudade dos pequenos, dos vizinhos, dos eternos amigos que fizemos. Que Deus me permita sempre lembra-los.
Que permita que eu lhes explique que foi impossivel por causa desse mar e dessa cidade que me nega, que sou eu. Dessa pachorra, charla. Dessa ebulição latina que somos. E que me mostre às claras o que fazer com esse amor, para que eu possa compreender melhor essa miragem em minha memoria e esta porta à minha frente. Para que eu apenas me lembre.
Terça-feira, Julho 01, 2008 ::: Comemorando o reencontro, aquele texto antigo pra você saber que eu não esqueci:
7 de julho de 2005, quinta feira :::
É absolutamente impossível recuperar um texto depois de escreve-lo e sofrer um traiçoeiro espirro da sessão no Blogger, mas vams lá, nunca é vão tentar. Eu dizia da minha condição de amante da criação dramática na poesia e já me esqueci o que dizia admirar na prosa, mas sei que tem relação com a dramatização do objetivo, ou do aparentemente estático. Era isso. É assim que amo a palavra. Dava exemplos que agora não vêm mais com a mesma emoção, mas posso dizer que estou ouvindo o mesmo cd que eu fiz com músicas de forró que são simplesmente emocionantes e penso em músicas que têm a mesma capacidade em todos os outros ritmos e, clarus est, na poesia. Uma decepção pode ser simplesmente uma decepção, uma frustração facilmente traduzível num putz lacônico. Uma saudade, simplesmente uma saudade, a não ser que se queira demonstrar cada suspiro, pintar cada imagem, reclamar o desconforto da alma... é dai que vem a poesia! em forró seria "ê baião, coração... arranca essa dor do meu peito pra eu não chorar!", que também é poesia. Alma minha gentil, que te partiste se lá do assento etéreo onde subiste memória dessa terra se consente... Fez-se do amigo próximo o distante, de repente não mais que de repente. Não significa dizer uma coisa por outra. Samba da Portela: Foi embora o meu grande amor, fiquei tão sozinho, sem um carinho neste mundo de dor.. Não deixe Criador eu sofrer assim, faça voltar o meu amor pra mim! Foi embora... É uma questão de retratar o que só se sente... Me lembrei escrevendo o tópico acima que escrevia aqui também para dizer da criação dramática que procuro na poesia, a encontro abundante no forró.. esse é o elo do comentário. Quando quero algo "poético", me contento com algo dramático. Teatro quase sempre é poético. Adélia Prado, tão singela, é sempre poético. Meu pai uma ocasião pintou a casa de dourado. A nossa casa estava sempre amanhecendo. Daí dizer que o drama do forró é poético. "Que saudade, do seu corpo seu calor do seu perfume, ter você grudado em mim virou costume, to passando maus momentos sem você".
Quando eu disse a Paula que a maioria das estudantes por aqui ganhavam dos pais um carro pra bater a cada estacionamento, ela me fez um como assim que na hora eu não expliquei, não por que não tivesse percebido a confusão, mas por ter certeza de não tê-la ofendido.
Ontem me veio uma nostalgia e esta insegurança, mas também uma clareza das idéias, e eu passo aqui aqui pra dizer que eu percebi, e agora explico.
Paula tinha acabado de passar por um acidente no estacionamento de seu prédio em que, apesar da pouca gravidade, pôde ver como se acham superiores os homens motorizados, quando conversávamos sobre a Universidade e os colegas e a vida que abandonamos, juntos, depois de enfrentar um curso de letras em meio a tantas exigências da vida. Letras ficou para poetas, enquanto nós, os incrédulos, cuidamos da vida.
Por isso, e sendo ela uma boa alma, antipoda de mim que praguejo e desdigo, ela não pôde achar que eu falava de outro alguém que não fosse ela quando lhe respondi a uma qualquer pergunta que a faculdade era feita de dondoquinhas cabeças de vento com os seus carros de bate bate e as suas microsaias da moda. Ela me perguntou de Marina nossa amiga, Iemanjá em figura e porte, mas seus olhos me disseram Eu não sou assim. Os meus, sei lá o que disseram, eu penso em coisas inúteis quando devo ter uma idéia à altura da conversa.
Digo hoje, então, que vindo ontem de ônibus para casa às dez da noite, quando o ônibus mirou a Bonocô vazia, que pensei naquela conversa e resolvi escrever isto, que assim de público dirá que não é por ser jovem bela e bater o carro no estacionamento que uma mulher se torna uma menina, e que não é por estar em roupa de mulher que uma menina se transforma em outra coisa, e que nós, não eu e ela só, mas nós, os nossos, por vivermos assim, por pensarmos e por sntir girar o mundo, mover-se a face das águas, brotar as plantas, respirarem os bichos, multiplicarem-se as células, nós, por sabermos disso tudo, jamais seremos eles, nem elas.
Quarta-feira, Junho 18, 2008 ::: - Le «parrainage d'enfants juifs» définitivement abandonné -
Uma proposta de Sarkozy, feita em fevereiro, obrigaria todo estudante do ensino médio francês a adotar uma criança vítima do holocausto e buscar informações sobre a sua vida.
A proposta vinha no mesmo momento da proibição dos véus, da ultra laicização da escola e do fechamento do cerco contra os imigrantes (árabes) ilegais. Foi abandonada, não sem muito barulho e muita rebelião.
***
Já essa campanha diz o seguinte: é amarelo, é horrível, não combina com nada, mas pode salvar a sua vida. Dirige-se aos ciclistas, cada vez mais nomerosos, de Paris e outras cidades européias, além dos motoristas que precisam parar na estrada. O feinho da foto é o estilista Lagerfeld.
Por essas e outras a França é sempre um lindo país, mas às vezes é de la merde .
Suas idéias não correspondem aos fatos:
O tempo não para.
Soy un hombre, un bicho, una mujer
sou a mesa e as cadeiras desse cabaré
Nos bares, nas camas, nos lares, na lama
leve, a semente vai onde o vento leva
a gente pesa,
por mais que (in)vente
so vai onde pisa
Viver ou morrer é o de menos
você eu tenho que ter pra comer,
você eu tenho que ter pra durmir
você eu tenho que ter pra dizer.
Rio, 25 de maio
te envio um sorriso
te desejo uma praia
ta chovendo granizo
deu saudade de casa
dê lembrança aos amigos
no momento preciso
tomo um banho de rio
Inclassificavel ousadia
Poucas coisas são assim,
Pouca gente é boa ssim,
Poucos artistas entendem assim,
Pouco publico gosta ssim:
Sensação de exclusividade.
Mais um pro figurino do artista.
Veja bem, meu bem
bem que você podia pintar na sala
da minha tarde vazia
Segunda-feira, Junho 09, 2008 ::: Cem Anos de Solidão
...
Úrsula Buendía teve de fazer muito esforço para cumprir a sua promessa de morrer quando passasse a chuva. Na confusão daqueles dias, cega, andava pela casa com o braço erguido à frente do rosto, embora jamais esbarrasse em objeto algum.
Naqueles dias de loucura em quer a família almoçava aos turnos e sempre havia comida para quantos convidados chegassem, Úrsula jamais deixou de perguntar se o visitante não teria esquecido ali por engano uma mala com galeões de ouro.
...
Junto com a chuva, Fernanda começou o seu discurso contra Aureliano Arcádio, e enquanto erla reclamava, ele, distraído, reparava na janela que pendia, no armário que precisava de refrorço, na pintura que já desaparecia, e ao terceiro dia, quando já havia dado jeito a todos aqueles trabalhos, Fernanda ainda falava e a chuva que ainda haveria de cair por mais três meses não mudara de ânimo.
Irretocável, Fernanda vestia o seu roupão com a abertura matrimonial decorada com rendas e bicos, repetia o terço e consultava o calendário que as irmãs lhe entregaram no convento, segundo o qual entre a quaresma, e os dias satos e as regras e os dias de penitência e o advento, restavam, segundo o ano e o tema escolhido pelo vaticano, dois ou três dias apenas em que, sob penitência, o casamento deveria ser consumido sem que ela, no entanto, causasse escândalo a Aureliano.
Ao acordar, Fernanda esvaziava o urinol de madrepérola e, depois de rezar, maldizia o destino que lhe levara até Macondo.
...
Quando passou a chuva e Aureliano pode enfim voltar a viver na casa onde vivia, os animais deram de acompanhá-lo a cada vez que se deitava com Remédios, e as cabras, as galinhas, os porcos e todo o gado tiveram tantas crias que a festa em casa nunca acabava, e era preciso fazer bingos e grandes churrascos ára que os animais em número excessivo não invadissem a casa.
....
Casamento
Adélia Prado
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Terça-feira, Junho 03, 2008 ::: Acharam Managnês em Simões Filho. fica a 25 Km de Salvador, dá pra ir de Bicileta, eu mesmo já fui duas vezes. Não tem nada lá, é só passagem. Mas tem Manganês. Quinhentas pessoas estão escavando a rua do Campo para extrair o ouro tolo e vendê-lo a 70 centavos o quilo a alguém que está comprando. Quinhantas pessoas é todo mundo que eu conheço no Orkut, até os que eu não conheço, mais uns 180. Cento e oitenta são seis turmas da minha sétima série, quando éramos tantos que eu ainda me surpreendia com os colegas que tinha.
Simões Filho fica dentro do Pólo Petroquímico de Camaçari, se considerarmos as unidades do Pólo como pontas de uma figura geométrica. O Pólo fede, mas paga milhões para as prefeituras da região, já que fatura bilhões. Em volta dessa riqueza, quinhentas pessoas se acotovelam para abrir um buraco no meio de uma rua, o que é crime de destruição do patrimônio público, exploração ilegal de recursos minerais etc. etc. etc. Quinhentas pessoas apressadas sabendo que logo o governo vem interferir, cercar e tomar posse, os novos colonizadores.
De manhã, Ana Maria protestava contra a polícia do Pernambuco e dizia um RÉcife cafona, provocador. Protestava contra a contribuição de 1 centavo da CSS. Ana Maria ganha mais de Quinhentos mil.
O problema do Brasil é que tudo é insólito, e imoral é quando a gente tenta ser racional. Os direitos humanos são imorais, a coisa pública é imoral, a justiça é imoral. É preciso não ver, não ouvir, não falar.
Sexta-feira, Maio 30, 2008 ::: 1. A violência daqui é a mesma de todos os lugares. Desconfiança e escárnio contra a polícia, irrelevância do outro, soberania do nó do umbigo, tudo dito. De vez em quando também entra fome. Prender uma mulher por roubar doze latas de leite e prendê-la outra vez por mais doze latas é uma violência do estado.
2. Eu não sou mulher. Isso bastaria para que a minha compreensão do que diz Camille Paglia fosse um pouco limitada. Há mais. Camille fala em pós-guerras, em judia e em Nova Iorque. Uma judia americana no pós guerra? dois mafagafinhos, três coisas que eu não alcanço facilmente. A semiótica explica. Com esforço, vamos entrando na alma da coisa, e chegando aos homens que fizeram quadros sobre mulheres, aí vem algo. E saímos compreendendo melhor os homens do que as mulheres. O homem teme a poção fatal que a mulher é. Bons tempos esses do pós-guerra.
3. As gerações cometem sucessivamente menos erros, o que nos levaria a uma sociedade justa e igualitária algum dia. Menos poluidora, menos consumista e menos competitiva. Nem sempre pacífica, mas pacificadora. Até que.
3,5. Calmante para os hiperativos, estimulante para os depressivos, capital para os comunistas e social para os liberais. O martelo da sociedade obrigando.
4. Os índios, os de verdade, que coisa linda! negros, vermelhos, flechas, bananeira, aipim, amazônia. Tudo novo, arisco, milenar. Glória, adeus. A vida é o risco de deixar esse computador e me embrenhar naquele mato, judeu nem guerra, nem bolsa nem cartilha, e tomar banho de sol, banho de sol, sol.
Terça-feira, Maio 27, 2008 ::: Sebastião Nery - Radio Metropole Índio era Juruna
26/05/2008 12:20:00
O chefe da Funai em Barra do Garças, Mato Grosso, o enganou, ele contou a um pastor batista que ia matá-lo e fugir para o Paraguai. O pastor ligou para Darcy Ribeiro, queria ajuda. Darcy sugeriu que o pastor o trouxesse urgente para o Rio e pediu a Lisaneas Maciel e a mim para recebermos o pastor e Juruna no aeroporto do Galeão.
Fomos, e levamos os dois para o apartamento de Brizola, na Avenida Atlântica, em Copacabana. Juruna ficou em pé, com aquele tamanhão, as mãos enormes, o cabelo tosado, calado. Mal falava algumas palavras.
Darcy disse-lhe que se sentasse. Juruna não se sentou e ficou olhando duro para Brizola. Darcy explicou que ele não se sentava porque esperava uma palavra do dono da casa. Brizola falou, Juruna se sentou. Brizola pensou em lançá-lo para o Senado, mas Saturnino já era candidato. Juruna saiu para deputado, elegeu-se e foi tragado em Brasília.
Brizola
Aos 17 anos, em 60 (nasceu em setembro de 43), ainda vivia nu na floresta, tentando flechar avião voando baixo. Pouco depois, já cacique xavante da aldeia Namunjurá, em São Marcos, Barra do Garças, Mato Grosso, começou a reivindicar e discordar da Funai. Apareceu em Brasília em 77, com sua desconfiança e seu gravador, porque “Funai não cumpria” e “governo de homem branco mentia”.
Na campanha de 82, íamos com Brizola às universidades, comícios na baixada, no interior. Bocaiúva Cunha, Brandão Monteiro, riam dele. Ficava com ódio. Achava que as notas engraçadas do saudoso Zozimo sobre ele, na coluna, eram passadas por Bocaiúva. Foi a Brizola:
- “Bizola”, Juruna vai bater em “Bocauva”. “Bocauva” manda “Gosmo” escrever no jornal contra Juruna. “Bocauva” filho puta.
Brizola falou com Bocaiúva, me chamou :
- Tu estás eleito. Toma conta do cacique. Pede voto para ele.
Nos comícios, eu falava dele, pedia votos. Ficou meu amigo eterno.
Analfabeto
Na quadra 202 Norte, dos deputados, em Brasília, ele morava no 1º andar com a mulher e doze filhos. Eu, Chico Pinto, Amauri Muller, outros, nos demais andares. Toda manhã, ele subia para meu apartamento, um bolo de jornais na mão, tocava a campainha, não cumprimentava ninguém:
Entrava, ia direto para o escritório, jogava os jornais sobre a mesa:
- “Nerú”, lê jornal pra Juruna. Jornal fala de Juruna?
Eu já tinha lido alguns, dava uma olhada nos outros, quando havia noticia sobre ele marcava o nome em lápis vermelho, ele rasgava o pedaço, dobrava, punha no bolso e saia rápido, sem agradecer nem dizer até logo.
Na Câmara, entregava os recortes à assessoria, como se ele tivesse lido e dizia o discurso que queria fazer. Escreviam o discurso, ia para a tribuna e enganava 500 políticos que se achavam mais espertos que ele.
Ulysses
Como se estivesse lendo, Juruna ia falando, mas não era o que estava escrito, era o que ele pensava, e ia pondo as folhas “lidas” do lado, depois dava à taquigrafia. É só conferir nas notas taquigráficas da Câmara.
Os discursos dele eram sempre duplos: o escrito e o realmente falado. Um dia, em Roma, muito tempo depois, à beira de um Brunello Di Montalcino, contei essa historia a Ulysses Guimarães. Ficou surpreso :
- Que índio filho da puta. Me enganou quatro anos.
Ulysses não sabia, ninguém sabia, Juruna não lia. Só assinava o nome. Era um segredo que prometi guardar, enquanto ele vivesse. Cumpri.
Tancredo
Saía da Câmara, entrava no primeiro carro oficial e ia para casa. Não adiantava dizer que o carro era de outro. Mandava seguir :
- Deputado povo, carro povo.
Na eleição indireta de 85, o coordenador da campanha de Maluf, Calim Eid, que Juruna chamava de “Galinhei”, depositou um dinheiro, uma mixaria, na conta dele. De manhã, Juruna entrou em minha casa :
- “Nerú”, Juruna pode comprar fazenda? Por que deputado branco pode comprar fazenda e Juruna não pode?
- Porque você, como eu, não tem dinheiro para comprar fazenda.
Outros amigos e eu lhe pedimos, ele reuniu a imprensa, contou a história do dinheiro de “Galinhei”, devolveu e votou em Tancredo. Morreu duro e puro, ajudado pelo PDT de Brasília. Nunca vi índio tão índio. Os brancos, como ele chamava os políticos, não arrancaram sua alma de índio.
Índio de Ong
Agora, no Brasil, inventaram “índio de ONG”. Em Roraima (Raposa-Serra do Sol), no Pará (hidroelétrica Belo Monte), a TV e a internet mostram “caciques” em escritórios refrigerados, com carro importado, relógios de grife, computador, note-book, celular.
Em Roraima, o “cacique Julio Macuxi”, preside uma ONG que é uma “embaixada estrangeira na Amazônia”, com o “site” “Cir.org,br”, “parceira” da “Norad - Noruega”,“Amazon Alliance”, Nova Zelandia, etc.
Dá entrevista : - “Queremos um Estatuto Indígena que regulamente a exploração das nossas riquezas minerais, nossos recursos hídricos. Não queremos migalhas de royalties, queremos vender nosso produto ao Brasil. A hidroelétrica de Cotingo temos condições de construir e vender energia”.
Quarta-feira, Maio 21, 2008 ::: A maravilha de saber das coisas:
Caixa Postal 147,
Lisboa, 20 de Janeiro de 1935.
Meu querido Camarada:
(...)
Quanto à publicação do Banqueiro Anarquista em inglez, tambem ahi não haverá, creio eu, mas por outras razões, difficuldade notavel. Se na obra houver capacidade de interesse para o mercado inglez, o agente literario, a quem eu a enviar, a collocará mais tarde ou mais cedo. Não será preciso recorrer ao appoio do Richard Aldington, cuja indicação, todavia, muito lhe agradeço. Os agentes literarios (respondo agora à sua pergunta sobre o que são) são individuos, ou firmas, que collocam os livros ou escriptos dos auctores junto de editores ou directores de jornaes, que elles, melhor que os auctores, avaliam quaes devam ser, mediante uma commissão, em geral de dez por cento. Neste ponto, sei o que hei de fazer e a quem me hei de dirigir - coisa rara, aliás, em mim, em qualquer circumstancia práctica da vida.
Quarta-feira, Maio 14, 2008 ::: O mundo com uma razão
Andei revendo o Código da Vinci. Audrey e seus olhos de grande vaca, Oh instinto. Mas não foi isso.
O filme, o livro, seja lá, é ótimo como forma de pensar que alguns episódios da nossa história tiveram uma razão de ser, e que se baseiam em uma lógica maligna contra um fato que irá redimir a humanidade logo ali na esquina. Senhoras e senhores, Jesus anda entre nós, melhor, Maria e a sua divindade feminina, seu perdão e seu amor. Senhoras e senhores, nos mentiram mas foi só por dois mil anos, agora vamos lá, o segredo está desvendado.
O filme acaba, vamos de volta. Não há segredo. Foi guerra por nada, foi fogueira por nada e Igreja por nada. Jesus disse outra coisa, Maria outra, Deus outra, mas nós ficamos com Roma. E depois, ficamos filhos da cruz e não de Deus. Hoje não tem Maria, não tem Fernando Pessoa. Não tem redenção.
Em toda aula de Filosofia nos ensinam o Mito. Mito é quando os índios dizem que o Sol está zangado e ligam o Sol à sua dança da chuva, que ligaram à lua, e aí vai. Explica-se o mundo pelo fenômenos naturais mais visíveis, imediatos. Depois vem a construção da divindade, segundo a moral e os costumes do grupo. E isso só evolui, junto com os grupos e os tempos e os costumes, até que chegue um outro tempo e uma outra explicação e outra mitologia, afro greco indo bizantino romano cristão.
Hoje, segundo os nossos usos e costumes, posso comer bem sem me importar se dona maria come. Posso acumular o soldo do meu trabalho e as vantagens de acumular o meu soldo, comprar uma terra e viver ali. Posso comprar e vender e posso. Mas não posso andar até o estreito de Bering, como fizeram os primeiros homens. Não posso encontrar uma casa vazia e ocupá-la. Não posso. Tá explicado como o mundo muda.
Entre o rapaz de Neanderthal e eu da Bahia Deus falou a Moisés, a Abraão, a Noé, a Maria, e ela aos meninos de Fátima. Deus protege o papa e mora nas igrejas. Deus falou, o homem, nós, desobedecemos. Não há mais segredo nisso. O mundo explica-se até onde podemos ver, há outras teorias para quem enxerga um pouco mais ou menos. Da verdade mesmo só há um intuição, um palpite em que ninguém acredita.
E o filme, voltemos. Não tem Graal, não tem. A história está toda contada e o Tao do Fi do Yan é marquetingue. Não tem mais que acreditar, tem que ter MBA, falar inglês, e ter um turno livre. Todo mundo quer o perdão de Deus, mas casa no céu tá ruim de pagar a prestação. Será que Da Vinci estava lá e sabe e deixou um recado pra nós? Será que a Joconda grávida é sucessora de Maria de Magdala? Será que Saramago leu as cartas de Da Vinci? Tanto desejo de querer uma outra hisória só se assemelha ao delírio de querer esta história que está aí. É uma IURD do ateísmo. o Desejo radical de um mundo com uma razão, qualquer que seja, e de uma Inquisição com outra razão que não seja a sedfe de poder e o medo de outros poderes e o desejo de controlar e enriquecer e desfrutar. O desejo de outra história que não seja a da disputa da propriedade por esta fruta, esta mulher, este lado do rio, este continente.
Não confundir com fé, que é outra coisa. Fé é senhor, eu não sou digno, dizei uma palavra e serei salvo. Quem sou eu para entender os desígnios do Senhor. Quem diz Deus fez está mentindo, Deus não contou a ninguém e quem fala sem ter visto testemunha falso. Isso é fé. Acredito, seja como for. Isso é fé. Espero, mesmo assim. É Fé. E é o que restou.
Oh, je voudrais tant que tu te souviennes
des jours heureux oú nous étions amis
En ce temps lá la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Oh, eu queria tanto que você se lembrasse
Dos dias felizes em que éramos amigos
Nesse tempo a vida era mais bela
E até o Sol tinha mais brilho que hoje
Da musica ''as folhas mortas'', essa frase ficava estampada em uma estação de metrô de Paris, e eu nem me lembrava. Paris doce de lembrar.
Xico Costa
Para arquitetos [e] viajantes: Giselle Bündchen, a alemã de Barcelona
http://www.vitruvius.com.br/arquiteturismo/arqtur_14/arqtur14.asp (tem que clicar nas letrinhas miudinhas)
Estou fazendo um trabalho de cão soh porque nem sei. Vale o café. E rezando para dias ainda melhores que virão. Nem teve Gol do Bahia, hoje quem sabe.
A cada dia discordo mais dos Doutores em suas torres e até os que não estão lá. Sinal de que vou tendo as minhas idéias, sinal de que já não penso o que preste.
Saudade é uma palavra so' nossa, que aqui não há quem não entenda nem alimente, nem quem explique .
EU VOU!
Di Grátis, com direito a sacolinha, caneta e outros espelhinhos!
E custava 270 pilas! e a imagem eu nem copiei pro meu blog! e tem certificado!!! GOOOOLLLLLLLLL do BAHEEEEEEEEEEEAAAAAAA!!!
Oh, je voudrais tant que tu te souviennes
des jours heureux oú nous étions amis En ce temps lá la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes, comme je lisait dans les murs du metro Rivoli.
Paris, que c'est doux de m'en souvenir!
Sábado, Abril 26, 2008 ::: Aznavour Genial - Traduzido livremente e simplesmente, para Liliam
[Les nerfs à fleur de peau
j'affronte nos problémes
les mots froides et tranchants
ont lardés nos je t'aimes
et poignardés nos jours
dans la [ ] de nos coeurs
se glisse la gangrène
l'amour defiguré
nous conduit de la haine
Jusqu'á ce point de non retour]
Si je t'ai blessée
Si j'ai noirci ton passé
Viens pleurer au creux de mon épaule
Viens tout contre moi
Et si je fus maladroit
Je t'en prie, chérie, pardonne-moi
Laisse ta pudeur
Du plus profond de ton cœur
Viens pleurer au creux de mon épaule
Oublie si tu peux
Nos querelles d'amoureux
Et, chérie, nous pourrons être heureux
Ô, mon amour
Ne m'enlève pas le souffle de ma vie
Ni mes joies
Pour ce qui ne fut qu'un instant de folie
Ne dis pas adieu
Nous serions trop malheureux
Viens pleurer au creux de mon épaule
Car si tu partais
Si mon bonheur se brisait
Mon amour, c'est moi qui pleurerais
Os nervos à flor da pele
Encaro os nosos problemas:
palavras cortantes
apodreceram nossos eu te amo
e apunhalaram nossos dias...
em nosso coração
circula a gangrena
o amor desfigurado
nos transmite o ódio
até esse ponto final
se eu te machuquei
se manchei seu passado
venha chorar em meu ombro
venha junto à mim
e se eu fui desajeitado
eu te peço, amor, me perdoe...
deixe seu pudor
do mais profundo do seu coração
venha chorar em meu ombro
esqueça se puder
nossas brigas de apaixonados
e, meu amor, nós podemeremos ser felizes...
Meu amor
Não retire o ar da minha vida
nem minha alegria
por isso que não foi mais que um momento de loucura
não diga adeus
nós seríamos infelizes demais
venha chorar em meu ombro
pois se você partisse
se quebrasse nossa felicidade
meu amor, eu é quem iria chorar
Ela amava ele de amor atrapalhado. Em toda festa ele não estava, em todo sonho ela acordava antes de enfim dizer a ele tudo aquilo, todo dia comum ela acordava por ele muito cedo, por ele procurava uma meia limpa, um par. Ela amava ele de faz anos, certeza de não sabia por quê mas nunca que ele ia amar de volta. Amor que elas têm por eles não serem os mais bonitos nem mais sabidos, por não serem muito fortes, nem muito fracos, por vestirem lindamente o uniforme de todos. Amor normal, amor pra ser mais um, confortáveis numa rede na varanda para ver o Sol nascer.
Ele amava ela. Amava de ligar todos os dias a cobrar e ouvir a voz irritada reclamando do trote. Amava de encontrar em todas as músicas um lugar pra ela entrar, pra ela ficar, pra ser dela o vestido amarelo que pensava. De acodar para o banho frio e para a visão dela. Ela em tudo, ela obrigatória, sem mais por quê. Ela que ele pedia a toda hora.
A vida, esse desencontro, sucessão de tragédias particulares, de criações da mente e do medo, a vida. Um dia por um dia, força com que o passado empurra a terna eternidade. Vai que, num dia em que ela tem coragem e tem amor e não tem mais aula depois das aulas, nesse dia o amado idolatrado salva salva a sua pele decorando trinômios quadrados perfeitos. Ela vai falar, estamos vendo, ela vai com a mão esquerda e põe o cabelo atras da orelha direita, ela vai dizer, abre a boca. Diz a ele, Diz a ela.
A vida é a distância, o recado que nunca vai chegar. Ela agora é a pergunta, a espera de um dia em que tudo aquilo, nada daquilo. Ele agora é liberdade para querer além da soma do quadrado dos catetos. Não, não agora. Não nunca. De uma queda foi ao chão.
Depois de o Sol ter ficado e a Terra ter rodado, nunca mais sera um não. Nunca mais ela dira que por isso, nunca mais ele dira que não. Agora é certo, eu sei. Agora ela o ama até a eternidade. Agora ele sente amor paciente. Deus, essa entidade que tudo pode, tudo vê e em tudo esta. Ele a ama, ela não cabe em si de saber.
Agora nunca mais nunca. Basta mais um dia, basta uma outra vez, a proxima vez. Basta ser que agora sim. Ele é todo vestido amarelo para ela entrar, ela é saber que eles serão.
A Vida, Deus, a certeza de um amor que sera. O coração convencido das benesses de Deus. Basta um dia, na proxima vez que eu te ver, amanhã de manhã. Mas um amor assim não está seguro, há que se saber. Há carros e há estrada, há quem nunca os tenha visto. São tantas as rezões de ser assim que não haverá razão para apenas ser assim.
Pode ser, um dia ele faz a ela presente de sua fotografia. Ela, nesse dia, comemora entre os amigos. Um dia, eles comemoram o dia dos maus de foto. Um dia. Basta um dia. A vida, esse não se ajustar. Agora é que nunca mais. Tudo acabado, com o coração ardendo em chama, divina dama. Pode ser que um dia ele pra ela se declara. Você. Já não se lembra, já está aí, qualquer dia. Vão passando.
Para sempre agora tudo que não pôde ser. Bastava um dia. Ela como seria naquele vestido, ele como descansaria na rede. O que se diriam, o que sonhariam. Estamos vendo. Eles que teriam se amado tanto. Nunca dura muito.
Quinta-feira, Abril 10, 2008 ::: RECOMENDO MUITO: Poetinha Linda
A prima e o Primo
(extratos)
Esse é o momento mais bonito dessa história, é o momento sublime, esse é o meu momento, é o momento de escrever poeticamente o que a Prima sentiu, esse momento é tão bom que merece até um parágrafo.
(...)
A Prima e seu Pretendente começaram a namorar, ele não era exatamente um Primo, mas há de se fazer o quê, são as coisas da vida, quem não tem gato caça com cão. Ele era um homem bom e deveria fazê-la sorrir, isso é o mínimo que os homens devem fazer as mulheres.
Quarta-feira, Abril 09, 2008 ::: Mon blog c'est moi. Parfois j'y écris pour en avoir marre, par desespoir. C'est quand même moi. Parfois je l'abandonne aux égards des perdus de la toile, à l'attentoin de ma seule lectrice, qui, elle aussi, a pitié de sa sort. J'ai des amis qui j'aimerais recevoir ici, j'aimerais qu'ils comprennent mon univers et mes images, cette langue riche, superbe et genéreuse qui est la notre. Il faut attendre. J' écris en français pour qu'ils puissent comprendre si jamais ils viennent, ce ne sera pas par l'oubli que je pêcherai. Peût être par les accents, jamis par l'oubli. Il y a des frases qui sont à eux, car ils sont les seuls à pouvoir les comprendre. Je ne connais pas ces étoiles. Arnaque. O rage, O deséspoir.
J'ai lu à propos de Saramago et la ville de Lisbonne: une fois parti de son univers, l' intelectuel est perdu pour la vie. Il y reviendra avec une image corrompue, il y cherchera des choses disparus. jamais il ne pourra s'arrêter, il ne pourra s' installer nulle part. Il sera toujours quelqu'un qui veût être ailleurs, un bani. Les sourires hors de cadre, les musiques sonnant faux, les faux, que des faux. Un étranger, ça ne devient jamais rien d'autre. Ce n'est pas une tristesse, loin de ça. Il y a aussi l'éternel de l'âme, les rencontres qui auront lieu quand il ne s'y attendra plus. Je n'attend que ça.
Quinta-feira, Abril 03, 2008 ::: A alegria de me repetir.
5.11.07 8:53 AM | PEDRO LAURENTINO]
Pela double vitrage eu tomo sol e esquenta. Viajo mundo pelo álbum do orkut, só encontro quem não fui, veja que filosofia, que eu explico. Longa Historia sintaxe de Rodrigo S.M.. Nasci na caixa d'água, mas podia ter sido em Caetite, em Ibiassucê, no Recife. São dois mundos. Dois, Bahia e Pernambuco. Já nasci caduco. No norte, minhas primas, como são lindas, como me dão saudade de todos no quintal depois da cabidela, depois da soneca, no café, no banho, na janta. Como me dão saudade de tudo que não foi possível por causa da vida, por causa do tempo, da distancia e para que outras coisas pudessem ser. Saudade que eu podia ter resolvido, mas vim parar aqui. Tem nada não, quando eu chegar vai ser bem muito mais. Mas tem mais, tem carinho, tem beleza, tem poesia. Tem Tia Vera, sua silhueta de sacerdotisa, sua juventude, seu amor imenso. Tem Tia Luca, sua maternidade romana, seu tempero nosso, sua carninha temperada, seu cuidado. Pretinha, que amor imenso. Tio Valdir, com calma e paciência, como me entendo quando o vejo. Velho Doda, que tem saudade de nos. Dan, que já estava ai, tio Jaime. Nem tudo se explica quando entramos numa camarinha e tudo nos conhece tudo nos reflete e, no entanto, não nos lembramos do ter estado ali acordados. Eu só queria não falar menos do que devo, por isso tanto.
E o outro mundo, o que foi meu e já não tenho, que conhece e não me busca, que não reconheço mais como quando sabia cada palma da mão. De igual família, numerosa, rica em cada um. Se ainda vivo na mesma casa, e dou todas as graças por isso, não saímos mais a rua, nem saio eu nem eles. Vamos olhando as fotografias. Esse era pequeno, magrelo, primo do vizinho. Aquela, como era redondinha, hoje modelo. Os desconhecidos de ontem sentam-se hoje nos nossos bancos, nossas praças, e não temos mais coragem de ir ate lá. E aconteceu comigo o que aconteceu com todos os da minha idade e um pouco mais, fomos todos pelo mundo em busca de coisas que não tínhamos, e deixamos as cadeiras nessa saída a feira. Não encontraremos mais. Quem ficou nos incrimina. Clareza. Fugimos de um caminho único lá, e houve quem escolhesse ficar, eis por que. Mas saudade é uma doença, madrinha. Quando vem a saudade, sei que tudo isso é metafísica, é duvida que não se materializa, e me acalmo. Gosto de lembrar. Aí, me encontro com o caminho que não houve, com o que há agora e os sonhos que tivemos. Com aquela menina eu ia me casar quando completasse 25, daquela nunca ia me separar. Com aquela roupa eu fui à festa, naquela festa eu tive medo de chorar. Eh baião, arranca essa dor do meu peito pra eu não chorar.
Tomo Sol pela double vitrage e me esquento. O que posso viver depois de ter vivido isso? Não a vida, o amor, as contas, o emprego. A vida dentro disso. Como vou comer cabidela e explicar três vezes por mês a mesma historia de cabidela em Igarassu, esquecer o nome de Igarassu de quinze em quinze dias e ficar chato muito chato, pagando mico ou alguma coisa no novo idioma dos meus filhos? Como obrigá-los a passar o São João longe das festas de camisa, enterrá-los na fazenda velha e aborrecê-los, sabendo que depois vão morrer da mesma saudade minha, da dor de terem podido ser dali e nunca nunca? Como vou ficar vendo esse sol aqui, se estava consciente desde o meu primeiro banho de sol em Itaparica que não seria para sempre aquele calor, se não pude dar-me a ele inteiro sabendo disso?
Meninos, eu vivi, antes não tivessem fim aqueles dias, quem foi o infeliz que cortou o tempo em fatias e separou as nossas idades em galáxias inalcançáveis? Meu mestrado foi em poesia moderna, cantando Tudo outra vez e sabendo que eu faria tudo aquilo outra vez, sem remédios. Sempre compreendi amigos presos amigos sumindo assim pra nunca mais, desde a primeira vez, por que já vivia assim. São nove da manha. Sem sofrer, essa saudade me vem como uma consciência, e a questão sincera: como vou viver com tudo isso? Viver é uma tarefa longa, há quem meta uma vida toda nisso. Vou com fé e alegria, e quando lhe reencontrar saiba que toda essa saudade vai no meu abraço.
Quarta-feira, Abril 02, 2008 ::: http://memoriaviva.digi.com.br/drummond/verso.htm - para ouvir o mestre mesmo dizer isso.
Procura da poesia
Drummond, que ele me perdoe a edição estabanada, é que.
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
(...)
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
(...)
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
(...)
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
(...)
Não te aborreças.
(...)
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
(...)
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
(...)
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Trago fado nos sentidos, agora. Tenho que dizer da minha imensa gratidão aos portugueses, da minha paixão por Lisboa e pelo canto de sereia do Fado. Cristina Branco, Mariza, Amália, mais muito mais. Há que ir ao Bairro Alto e Alfama numa noite boemiando e descorir que nem saimos de casa. Nossa poesia é fado, nossa saudade é fado, nosso amor vagabundo é fado. E o fado vem com uma riqueza a mais, uma porta que pede atenção e carinho: o sotaque lusitano, que cantado torna-se ainda mais especial. Não nos enganemos, isto é riqueza. Toma um poema de Pessoa, de Florbela ou de Mario de Sá e lê como ele foi escrito. Além de belo é divertido. vem disso também minha gratidão e meu sentimento lusitano: sou muitas vezes mais rico pois agora tenho esse tesouro que me entrega Portugal, Cabo Verde, Angola e todo o mundo lusofônico. Obrigadinho, malta!
AMALIA - nem as paredes confesso
AMALIA RODRIGUES - Tudo isto é Fado
Tudo isto é fado
Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Eu disse que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia
Mas vou-te dizer agora
Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado
CRISTINA BRANCO - tive um coração, perdi-o de Amalia Rodrigues e José Fontes Rocha
tive um coração, perdi-o
tive um coração, perdi-o
ai, quem mo dera encontrar
preso no fundo do rio
ou afogado no mar
quem me dera ir embora
ir embora, sem voltar
a morte que me namora
já me pode vir buscar
tive um coração, perdi-o
ainda o vou encontrar
preso no lodo do rio
ou afogado no mar
Terça-feira, Março 25, 2008 ::: Querem boicotar Pequim por causa do dalalai, mas ninguém boicota a ford por causa dos desempregados, nem a nestlé por causa da greve. Não que Beijing seja alguma coisa, mas essa histeria seletiva pra mim é hipocrisia. O Mainardi escreveu a favor do Imperialismo americano como se ele fosse ingênuo. Os impérios não sãtatos o uma vantagem e nem garantem a pax eterna, os impérios são sinal de um ciclo esta'vel, e se alguém tem que defender um império é porquê ele esta' ruindo, assim como a ponte de Londres cai cai na musiquinha do desenho animado. Brinque, eu ando estudando!
Vou ver ali e volto.
Voltei. Estou vivendo vida de adulto. Estou devendo noti'cias a deus e o Mundo, mas sem dinheiro não se faz farra. A ética protestante no espirito do capitalismo ja diwia, se alguém te empresta um tostão e e te vê na farra, se apressa em cobrar, se te vê no trabalho, fica satisfeito por ajudar.
De que vive o poeta, de que vive,
se a horda que o segue é de iletrados,
se o vento que o move é de passados,
se o coração que em si bate está cansado?
Ora,
quem saberá?
bastará ao poeta sonhar, e
em seu idílio viver o que não há?
Poderá o poeta imaginar,
adivinhando,
o que virá?
Ao poeta, o que anima?
Por que não diz, ó Poeta,
Por que não ensina?
A torcida grita o fim do Big Brother. Também é uma resposta.
Quarta-feira, Março 19, 2008 ::: O Caso do Paliteiro, a República Tropical e outras inquietações
O palito da discórdia Aqui na Bahia todo mundo sabe da metade da história, mas ninguém segura a língua do povo e o resto está saindo por aí nos jornais da vizinhança. A filha que ACM não mandou matar está tirando o sono dos barões da Graça por causa da herança, do controle das empresas e de um paliteiro. Tá certo que ela não falou no paliteiro, mas dizem que Acm matava e morria pelo paliteiro ganho de uma ebaixatriz e que lhe dava ares de burguês para receber reis, rainhas e banqueiros. Na televisão choram a entrada da justiça no seio sagrado do lar da viúva compadecida que está sendo perseguida pela justiça, essa monstra ingrata, por causa da oposição, essa nefasta. Criticam a juiza que autorizou o inventario porque ela é mulher do eterno candidato à prefeitura pelo PT. Dizem que ela queria cartaz para o marido, Oh algoz, e que fez uma operação de cinema sem avisar a viúva, Arlete (essa história ficaria muito mais momesca com os toques de burguesia, os sobrenomes e as patentes, mas eu sou assim por enquanto).
O que esconderam de nós é que a viúva shakesperiana foi avisada, e que o clã acêmê escondeu a velha e fechou aporta para o oficial de justiça, que teve de voltar no dia seguinte com um policial apelidado de reforço e que a televisão estava lá sozinha esperando com a cena montada. Esondem ainda que o alvo de Terezinha foi sempre o controle da televisão que assim como no Maranhão é controlada pelos Sarney e no Ceará e em Alagoas e etc. etc., aqui é dos magalinos. Agora veja, a juíza que tem mais o que fazer, suponhamos, não teve ética por que deu uma mão à injustiçada herdeira enquanto lavava outra, a do PT. E a televisão, que era a única coisa que está em jogo na parada, além dos palitos de prata que viram os buracos dos dentes dos diretores do baneb e do FMI, não tinha que ficar nos bastidores também? Baianos, tremei, que o que era bom agora tá ficando bem mais animado!
Serviço de Desinformação Pública da República Tropical, Depto. das Bananas e outros pepinos
Cheguei aqui ao trabalho, estou trabalhando como não fazia há senta que lá vem a história. Expediente diário, protocolo, ônibus lotado e engarrafamento. Um proletário, um pequeno pino na engranagem do País. Nada de greves, licenças e aprés-midi livres por algum tempo, c'est comme ça que ça marche. Me trocaram de serviço, nada de mil alunos todo semestre também. Me puseram aqui na esperança de que houvesse mais trabalho e mais aproveitamento para um jovem funcionário que "desenrola no computador", vejam lá as minhas credenciais. Para informação, estou muito mais perto do cafézinho e com um janelão que permite ver o ir e vir ao som do ar condicionado. Hoje é quarta feira santa, com sorte ninguém virá aqui. Estou feliz de frente para o flamboyant vermelho, contando essas histórias e procurando vídeos no youtube. São muitas tarefas para um servidor só. Vou ali ver um café e venho já já, mas não me abuse que hoje é seta e isso de abuso é com 48 horas, em três vias.
E por falar...
Recomeçando das cinzas
Eu faço versos tão claros
Projeto sete desejos
Na fumaça do cigarro
Eu penso na blusa branca de renda
Que dei prá ela
Na curva de suas ancas
Quando escanchada na cela
Lembro um Flamboyant vermelho
No desmantelo da tarde
A mala azul arrumada
Que projetava a viagem
Recomeçando das cinzas
Vou recompondo a paisagem
Lembro um Flamboyant vermelho
No desmantelo da tarde
E agora penso na réstia
Daquela luz amarela
Que escorria do telhado
Prá dourar os olhos dela
Recomeçando das cinzas
Vou renascendo prá ela
E agora penso na réstia
Daquela luz amarela
E agora penso que a estrada
Da vida tenho de volta
Ninguém foge do destino
Esse trem que nos transporta
Olha, Maria,
Estou em Juazeiro. Daqui até aí é um dia de viagem com muita sorte, cana a perder de vista e esse nosso Sol na cabeça. Aqui não vai ser como em Xingó, mas você sabe que eu não volto antes de Abril. Feche a casa por causa dos morcegos, tem tanta cigarra aí que eles fazem a festa. Não vá sair daí e deixar tudo largado, cabra que passar e ver isso aí sem dono vai apreciar. Tô te mandando essas uvas e uma caixa de carne, tudo fresco daqui. Arrume uma lata de banha, vai faltar. Plante uma mão de machiche e venda aí essa cabra velha, mas venda pra matarem por lá que vai cercar a casa de cachorro se essa bicha cheirar. Só tire ela na hora de vender senão as outras vão sentir.
Mande um caixa de caju que eu faço a cajuína aqui. Peça a mamãe que lá sobra. Vou te mandar um coco da Bahia no próximo carro. Um cheiro.
Sexta-feira, Março 14, 2008 ::: BRASILEIROS, TREMEI
Todo mundo ja deve ter ouvido falar do pagobafo nas fronteiras espanholas. A mais nova é que eles estão fazendo controles nos vôos internos, especialmente para separar os brasileiros jovens e mulatos. Veja bem, num vôo de lisboa-madri ou barça simplesmente não ha' controles de migração. Não havia, agora a policia espanhola faz, mas so' pra nosotros.
do El Pais:
Y para demostrar que no existe trato discriminatorio contra los brasileños, echa mano de las estadísticas. De los 24.355 extranjeros rechazados el año pasado en los puertos y aeropuertos, sólo 3.083 fueron brasileños. Es cierto que en los tres primeros meses de este año fue impedida la entrada de un millar de ciudadanos de ese país,"pero eso se debe a que han llegado muchos más", según el portavoz citado. Un buen ejemplo de ello es lo sucedido en enero.
em breve, noticias que realmente interessam, fresquinhas neste disco.
Terça-feira, Fevereiro 19, 2008 ::: - "Com o imperialismo não queremos paz de qualquer tipo", 14 novembro 1965.
- "Quando um povo enérgico e viril chora, a injustiça treme", 15 outubro 1976. Pronunciamento na Praça da Revolução, no ato de luto pelas 73 vítimas do atentado de 6 de outubro de 1976 contra um avião cubano.
- "As bombas podem matar os famintos, os doentes, os ignorantes, mas não podem matar a fome, as doenças, a ignorância", 12 outubro 1979 na ONU
No me despido de ustedes. Deseo solo combatir como un soldado de las ideas. Seguiré escribiendo bajo el título "Reflexiones del compañero Fidel" . Será un arma más del arsenal con la cual se podrá contar. Tal vez mi voz se escuche. Seré cuidadoso.
Gracias
São as últimas palavras da carta de Fidel ao povo cubano, em que ele anuncia que se retira do poder para se tornar um soldado das idéias. O processo começou há meses, primeiro com as internações do Comandante em Chefe, depois com a presidência provisória de Raul, seu irmão. Como as eleições (sim, as eleições...) se aproximam, Fidel não havia apresentado a sua candidatura e já se aguardava o seu afastamento. Minha controvérsia não vem daí.
Escutemos Bush:
"Eles são os que foram presos por suas crenças, eles são aos quais se negou o direito a viver em uma sociedade livre",
"Enquanto isso - acrescentou - os prisioneiros políticos continuarão na prisão, e as condições humanas seguirão sendo patéticas em muitos casos".
"As pessoas foram presas porque se expressaram abertamente" Responda rápido:
Ele está falando de Guantánamo?
"A comunidade internacional deveria trabalhar com o povo cubano para começar a construir instituições para a democracia"
"Isto deve ser o começo da transição democrática para o povo de Cuba", Responda rápido:
Domingo, Fevereiro 10, 2008 ::: Posso processar o sbt pelas tardes daquele tempo. Sabe, muppet babies, punk, todos aqueles desenhos em que entra-se por uma dimensão e fica-se lá com mil tragédias sem nunca voltar pra casa, nunca de nunca mais. Sou fascinado por lewis carroll e alice, já tentei ler em várias versões e em ingles. tentei, porque do sbt vem a falta da perseverança das histórias sem fim. Os irmãos separados, os pais sumidos, os meninos transformados em sapo, tudo isto me deu muito medo, muito método e muita saudade. Sim, há um método: jamais contrariar a bruxa, jamais maltratar o homem velho, nunca comer a mcçã mais brilhante. Não entro em casa abandonada, tenho horror de vilarejo, não paro em beira de estrada deserta. Sem fotos em cemitério, sem cigarro pela janela, sem desejos de nunca mais ver ninguém. Muito cuidado com o que desejo, pois fui educado pela disney e por silvio santos. Posso ficar milionário a qualquer hora, porque de hora em hora o sbt informa o resultado parcial da telesena do dia das mães, eeee cinquenta!
Eu falo muito pouco, porque quando falamos muito há sempre alguém que escuta. as vezes eu sou ruim de fala, porque eu falo pouco e perco o costume. Eu tinha saudade de alguma coisa vendo o sbt de tarde, faz tempo. Talvez tudo isso fosse na manchete, vai que sim. Enfim, eu não tenho trauma de sbt, eu tenho trauma da televisão e do que não é rambo. Algumas sessões da tarde e muito cinema em casa. E nem é trauma, é a consciencia de que eu sou feito disso. Sou feito dos filmes impossíveis de ruim da sessão da tarde e do cinema em casa. Sou feito de Anos incríveis. What would you do if I sing out of tune. Não cante a tua cidade, isso não é poesia. Não cante a tua infância, todos tiveram infância, isso não é poesia. Penetra surdamente no reino das palavras, lá estão os poemas que esperam ser escritos. E eu sou feito disso tudo.
Pela double vitrage eu tomo sol e esquenta. Marconim, eu to aqui cantando fruto especial, só sei te amar e inevitável, mas falta sua risada e nossa desafinação. Falta o violão que eu nunca encarei a sério, até agora. Parece triste, mas é o contrário, to aqui celebrando tudo isso, essa vida inteira pela frente. Tudo isso aqui não faz muito sentido sem uma vidraça aumentando o sol, guardando o que nós somos do alcance das perguntas apressadas dos parisienses, da opressão do cotidiano que eles vivem. Nós vamos em outra marcha, nosso Sol em outra direção, nosso coração a mil. E se eu escrevesse o livro que eu não quero? Por enquanto não, mas aqui, quem sabe. Se procarurarem pela Cite Scolaire Moliere vão encontrar o ateliê de cultura brasileira com o assistente Laurentino, mas ninguém veio ainda assistir ao enterro da nossa última quimera. Vou lendo morte e vida severina, é a parte que me cabe deste latifúndio. Já Já vem Ana Clara, a prima de Guilherme lá do Maranhão.
Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008 ::: Carnaval é em casa, naquela casa ali em Ondina, no meio dos nossos irmãos foliões, comendo espetinho de gato na farofa de cebola, tomando schin skol e coca, copão de água, frevo rasgado, Armandinho. Carnaval é em casa, pra desespero nosso.
Segunda-feira, Janeiro 21, 2008 ::: Dinda Querida:
Lembro-me muito bem do dia em que fui àquela casa pela primeira vez. Uma manhã atravessada, Ondina, sol e chuva e a marmita na bolsa, eu trabalhava de tarde, cefet à noite. Sol e chuva em nossa terra é andar na água, na lama e nunca secar e morrer de calor. Uma reuniãqo em algum lugar, sem hora e sem explicação. 401, 402, 403, todos naquela sala. Uma alma diz: mas as aulas são em Inglês? eu não falo Inglês, como alguém pode ter isso no primeiro dia? Uma senhora se levanta. Evelina de Sá Hoisel. Aprenda rápido que lá os nomes não decepcionam, pelo menos até a gente tomar partido. Ela responde alguma coisa como o colégio acabou, bem vinda. Nos mostraram as opções. Bacharelado, Licenciatura, Clássicas, Vernáculas. E eu com isso? Poderiam me colocar um chapéu mágico, ele girava girava e hop-lá: isso. O fluxograma parecia um aeroporto. Aqui, vôo para a glória da literatura grega, aqui, declinações: latim, mas o latim morreu, não morreu, eu preferia, no meu tempo, dureza, deveria voltar: eu nem compreendia os caminhos e havia mais vozes do que eu poderia aguentar decidindo por mim. Sufôco. Uma professora em tirocínio anuncia que vai substituir Evelina na minha turma. Tirocínio Docente. Te matam com isso. Num canto estavam duas almas como a minha, sufocadas, mais até. O mundo não nos engole sozinhos. No corredor, fugindo, paramos frente a um quadro: Um papel mofado, salvo de não sei quantas, dessa vez vai salvar alguma coisa: o nosso dia. Lá estão as assinaturas e os depoimentos rabiscados de alguns poucos e justos. Obrigado por esta casa de luz, deve dizer um. Nem tudo fica marcado nas paredes. Aí vieram outras manhãs, as estantes da biblioteca, os bancos e o tempo passando. Eu nunca consegui chegar a uma conclusão, mas acho que você vai. Eu compreendi que é preciso querer muito pra continuar ali, e que é preciso perder algumas coisas para ganhar. Se eu pudesse te tomar pela mão e te acompanhar, te mostraria essas coisas, assim mesmo em caleidoscópio, e te deixaria formar a sua própria imagem, na esperança de que eu pudesse ver mais claro pelos seus olhos, depois. Um poeta como nós, eles que façam as concessões!
Um dia ouvi falar da bitola do trem do subúrbio, medieval, tadinha, não acompanha a do metrô. A culpa era de Imbassahy, diziam, que não tinha escolhido igual e que agora não podia mais. Jesus, como eu sofri. Sem dormir por causa da bitola do trem do subúrbio, do metrô, daquilo tudo. Em 98. Dez anos. Se eu soubesse disso tudo, minha velha...
Quinta-feira, Janeiro 10, 2008 ::: Buendía, Simone de Beauvoir. Eu nunca escrevi um livro inteiro e talvez nunca escreva. Gostava que alguém colasse as peças e me mandasse o cheque, os convites para a televisão e os telefonemas das academias. Por enquanto vou entrevistando-me com perguntas diferentes para ter as boas respostas quando chegar a hora. Conhece-te a ti mesmo, diz o Oráculo.
Daqui de longe tudo dói duas vezes. Espero que Deus esteja acordado. Sei que vou voltar pra encontrar aquele sorriso.
Terça-feira, Janeiro 08, 2008 ::: Falam da Antropocena, a era geológica que começou em 1800 e compreende o tempo em que os hidrocarburetos lançados pelo homem aqueceram a terra e mudaram profundamento a sua dinâmica. O nome vem da Holanda. Falam em Política de Civilização, uma nova Revolução Francesa para reescrever os limites, a moral e as atitudes com o meio ambiente, com a produção, com os direitos e com a privacidade. Feliz ano igual!!! Eu quero convocar uma outra Constituinte no Brasil pra acabar com tanto remendo e vantagem e tantos impossíveis. Já pensaram numa Constituinte sem Brizola e ACM nem Covas nem Tancredo nem nem? Clodovil, Frank Aguiar, Neto e tudo isso lá. Só faltava Mamãe e Da Luz.
Sexta-feira, Dezembro 07, 2007 ::: Tout s'en va! - Aznavour genial.
5 idéias que vão virar meu outro livro:
o Trem Metropolitano Salvador - Feira, via 1 Camaçari via 2 Candeias Conde e Santo Amaro;
as linhas de Trem Urbano ribeira-lapa, itapuã-barra, campo formoso - praia do duro;
A Escola de Oceanografia de Itaparica ,
a Fazenda Marinha da praia do francês, os campos de ostras, de sal, de camarão e a Indústria de Frutos do Mar do Alto do Santo Antonio dos Navegantes;
A Escola de Vela e Navegação do Recôncavo, as Regatas e o sistema de travessia a vela;
O programa de financiamento de construções e mutirões populares para a construção da Vila Salvador, com o movimento dos sem teto e os moradores de Valéria, Matança e Palestina, 80 mil casas financiadas, 15 mil lotes populares urbanizados, metrô financiado pelos lotes, Escola Superior Vila Salvador, Centro de Profissionalização Vila Salvador, Cooperativa Vila Salvador;
E mais uns suspiros:
O Centro de Reflorestamento Extensivo da Bahia, especializado na expansão equilibrada da Mata Atlântica atual;
A Escola de Arte Sertaneja, a Universidade Infantil da Bahia, o Hospital Odontológico do Estado,
As Esteiras de Pedestres do Centro de Salvador; O Observatório visual de Itaparica; O Centro de Equitação de Itaparica
São mais de 5 idéias, e meu coração treme.
O livro é cada idéia dessa devidamente imaginada, projetada e discutida em termos de orçamento, planejamento e implantação. Se cada uma delas é uma idéia necessária, eu não quero saber se tem dinheiro, eu vou perguntar com quantos tijolos se faz uma por uma, e pronto. Que tal, dindinha?
Gertrudes é muito gentil. As pessoas são sempre gentis quando acham que tem o poder de nos proteger de nós mesmos! Por que depois podem contar a suas amigas, aos seus amantes: Ontem ela estava terrível! acho que pensava no seu gigolô, e falou demais.. se eu não estivesse lá, acho que estaria morta!!!!
No más metrópole. Onde anda dona Juliana Cunha, eu passo ao largo. Coisa pavorosa! Morar no cinquiéme quer dizer pegar RER B e RER C pra ir trabalhar: mais que o alfabeto, é como sair de casa transportado pela Nasa 2a classe e depois pegar o expresso do oriente, primeira classe. o RER C é o trem que leva pro chateau de Versailles. Menino, que luxim!!! vejam aí embaico esse gênio de oitenta e uns anos!!!
La Bohème
Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
Ne peuvent pas connaître
Montmartre en ce temps-là
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenêtres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue
La bohème, la bohème
Ça voulait dire on est heureux
La bohème, la bohème
Nous ne mangions qu'un jour sur deux
Dans les cafés voisins
Nous étions quelques-uns
Qui attendions la gloire
Et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelque bistro
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poêle
En oubliant l'hiver
La bohème,
la bohème
Ça voulait dire tu es jolie
La bohème, la bohème
Et nous avions tous du génie
Souvent il m'arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d'un sein
Du galbe d'une hanche
Et ce n'est qu'au matin
Qu'on s'assayait enfin
Devant un café-crème
Epuisés mais ravis
Fallait-il que l'on s'aime
Et qu'on aime la vie
La bohème, la bohème
Ça voulait dire on a vingt ans
La bohème, la bohème
Et nous vivions de l'air du temps
Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire un tour
A mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui ont vu ma jeunesse
En haut d'un escalier
Je cherche l'atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
Et les lilas sont morts
La bohème, la bohème
On était jeunes,
on était fous
La bohème, la bohème
Ça ne veut plus rien dire du tout
Estou ouvindo você aqui de Paris faz dois meses, e sinto-me triste em te dizer que o nosso povo é triste, mas não é o único: cocô de cachorro na calçada, sujeira na rua, pular a roleta pra não pagar passagem, mendigos, pedinte no transporte público, mijo na rua, furar fila, confusão no guichê e desrespeito ao serviço público,nada disso é exclusividade da boa terra. É verdade que o alcolismo é crônico, festivo e comemorado, por aqui o vício fica por conta do cigarro, ensejando diversas "pausas-cigarro" durante o dia, e diga-se de passagem que o trânsito é das cavernas: tem tanto metrô que os motoristas são umas antas, fecham os cruzamentos, avançam o sinal vermelho SEMPRE e brigam no trânsito, saem na mão mesmo, ao menor sinal de uma fechada, freio na hora errada etc. E ainda ficam torturando a gente com história de europeu faz questão de pagar, de respeitar etc etc. Eu já tinha escrevido antes pra falar das milhares de greves que já vi por aqui, e olhe que sou recém chegado, graças a Deus com dia e hora pra voltar.
O povo é o inferno em qualquer lugar. O pior é que o nosso vai pro inferno sambando, comendo água, e levando um caminhão de mudança...
Terça-feira, Dezembro 04, 2007 ::: Quem é que vem à Paris e fica ouvindo Rádio Metrópole? ieu. Depois de ver Alain Delon e Vanessa Paradis e alguém que deve ser famoso mas eu não conheço, volto pro jornal diário do nosso rádio baiano. Pelo menos victor hugo ouve também!
Terça-feira, Novembro 27, 2007 ::: Tem mais Podcast, e mais tá vindo.
Fico aqui vendo e revendo o acidente da Fonte Nova, ouvindo tudo que costuma se dizer de sensacionalismo na Bahia, e todas as explicações pro inexplicável, e todos os conselhos de quem sempre sabe o que deveria ter sido feito. A única coisa sensata que eu consigo dizer é que não posso me conformar que isso tenha acontecido com o pobre do torcedor, que mais sofre do que sofrem todos os bocões e bicões.
Se fosse um tumulto, vá lá, se fosse uma bomba, uma briga, ninguém que prestava muita atenção (se alguém souber o nome de um torcedor que morreu assim, ou o número e o dia do jogo, conclua que eu sou maluco e fique aí achando que sabe tudo). Quando se diz que vão botar um milhão no estádio, começa a lenga lenga de não tem dinheiro pro pão e vão botar no estádio. Mas o pior é botaram dinheiro no estádio. Todo mundo que vai à fonte viu as grades no anel superior, onde costuma se pendurar o maluco da Bamor e eu agoniado achando que ele ia cair. Banco de reservas, pintura, grade e algum remendo. Pois é, botaram remendo, mas deviam ter botado viga, vergalhão, apoio e terceiro anel, e cadeira, e telão, e bar, e latrina. E metrô. O metrô vai cair na primeiraa viagem, Deus livre. deixem andar e balançar pra ver se cai, depois peguem. No pan botaram tudo, aqui a gente leva é pum.
Mas não faz sentido: Podia ter dado um curto circuito e não tinha jogo, podia ter ficado sem catraca, podia podia, mas não podia cair com o pobre do torcedor, não precisava matar o diabo do torcedor. Fica um nó na garganta de quem vê isso, fica uma locomotiva na garganta da família de quem morreu. Derrubem logo tudo, vamos apagar esse dia, culpar os verdadeiros culpados, rezar e seguir em frente. Deus me perdoe, mas a culpa é muito dele também. Mais pode ele perdoar do que eu pecar. Ao cerei C tudo se perdoa, a Deus é que as contas são bem contadas.
Se lembram do Axé num sei que lá, um desses eventos que nunca se repetem, que teve na fonte nova faz um tempo? foi promovido por um dono de construtora , André Guimarães, um cara desses. Heliodório é Bahia e segundo o que me diziam fez um projeto do terceiro anel do estádio. Metade do Crea é Bahia e dessa metade um bo bocado ia à Fonte. Culpa deles todos, também, e minha e sua, que nunca reclamamos e nunca imaginamos e dormimos o bom sono sempre. Culpa dos vendedores da tragédia anunciada que ninguém anunciou. Vejam: ninguém disse que aquela zorra caia. Não caia. Quem cai é o Bahia, e o Vitória. Não era pra ter caído, merde. Não faz sentido: desculpem por esse texto, não era pra ter sido assim.
Quarta-feira, Novembro 21, 2007 ::: E hoje mandei um e-mail pra Mario Kertesz e as meninas leram, só emoção. Eu adoro Mario, desde muito tempo, é um cara muito importante pra nós, vide Seu Varélia e Zé Bocão. Fora a "classe". Foi um aceno que me deu saudade e paz.
De Victor Hugo, em homenagem ao meu novo lar:
Aux Feuillantines Mes deux frères et moi, nous étions tout enfants.
Notre mère disait: jouez, mais je défends
Qu'on marche dans les fleurs et qu'on monte aux échelles
Abel était l'aîné, j'étais le plus petit.
Nous mangions notre pain de si bon appétit,
Que les femmes riaient quand nous passions près d'elles. (...)
Sim, eu vou morar numa casa onde viveu Victor Hugo.
Quinta-feira, Novembro 15, 2007 ::: Perdão, amor, por que pequei, ou Oração do Eclipse Total do Sol e da Lua pelo sábado de Carnaval em dia de Iemanjá
Amor ofendido,
perdoarás esta perfídia que lhe fiz?
Encontrarei eu, quando voltar
e será logo,
teu sorriso de sol,
tua grandeza,
e tua pouquíssima timidez?
Amor sagrado,
Perdoarás minha infidelidade,
meu exagero,
dando-me tua mão a beijar,
teu seio a acariciar,
e teus ares a gozar,
a gozar livre,
tuas pernas morenas,
teus caminhos doces,
e teus sabores indecifráveis?
Amada,
Na distância desses dias,
espalho teu nome como um louco,
de ouvido em ouvido,
amante latino,
e assim me torturo,
enumerando os teus milagres,
imaginando a hora,
tão desejada,
em que verei teu rosto no horizonte,
reconhecerei tua cor,
e pedirei somente perdão,
perdão, perdão,
mil vezes.
Prometo-te ser fiel,
doravante,
e mesmo que não me perdoes,
resignarei,
e por penitência te amarei mais e mais,
Cantarei tuas mãos de amante,
teu seio de mulher,
teus ares temperados,
a lamber livre
tuas pernas morenas,
teus caminhos doces,
e teu nome de amor,
Minha casa,
Salvador.
Minha pátria negra,
meu segredo,
minha dúvida.
Como te vejo nestas ruas,
tudo o que podias ter sido,
tudo o que te pilharam,
Senhora Dona,
e tudo o que te deu esta gente,
que desavisada,
te vestiu de cores,
tomou-te por mãe,
e perdoou teus impossíveis
com a liberdade de ser, também,
gente impossível.
Quero voltar,
e quis desde que pensei sair,
desde que nasci quero voltar.
Perdoa-me esse caminho torto,
namorada,
dá-me um lampejo de teu farol,
manda dizer que está a espera,
prepara um carnaval pro mês de junho.
Teu amante amadiano
daqui,
manda dizer que é só saudades,
e arrependido,
não vê beleza em parte alguma,
só teu rosto,
só teu rosto,
pintado em cada canto,
anunciando
uma noitada de amor para o regresso,
e lua de mel gravada em linho branco,
como mancha de dendê,
que não sai, meu bem,
não sai.
Quarta-feira, Novembro 14, 2007 ::: Do Humanité de Hoje, dia de protestos em toda a França:
La France serait une nation «grévicultrice» : le pays du «droit de paralyser» (le Figaro, 17 février 2004), qui préfère la «guerre sociale aux compromis» (le Monde, 26 mai 2003) et souffre d’une «forme d’infirmité que ne partagent pas nos voisins européens» (Christine Ockrent, les Grands Patrons, 1998) car «nul autre pays occidental ne se comporte ainsi» (l’Express, 5 juin 2003). Un bref rappel de la réalité historique et statistique de ce phénomène n’est donc pas sans intérêt.
trad:
A França seria uma nação grevista: o país do direito de paralisar (Figaro, 2004), que prefere a guerra social ao compromisso (Le monde, 2003) e sofre de um tipo de doença que não aflige seus vizinhos europeus (les grands patros, 1998) porque nenhum outro país aocidental se comporta assim (l'Express, 2003). Um breve olhar sobre as estatísticas e os dados das greves mostra que esse fenômeno não está desprovido de interesses...
Em seguida, o jornal explica que a França é apenas o décimo primeiro país grevista entre os mais desenvolvidos. Aff, quer dizer que por aqui é farra geral, hein????
Já peguei greve de professores, de trens, de agentes de transporte, de pescadores, de estudantes, de agentes de segurança, de médicos residentes.... em um mês. É Sarku na para, minha gente.
E dizem que no Brasil andam usando protetor solar, vejá só. Hoje é menos um e amanhã menos dois. máxima de sete.
Da opereta Faviela, de Elomar. Numa casa prepara-se o casamento de uma jovem. Seu irmão sái (esse sai tem acento?) de sua casa, na Terra dos empedrados, para ir cumprimentar a madrinha a mando de seu pai, e por um motivo mais particular ele aceita de bom grado a missão. Vai enfeitado com todos os apetrechos de montaria de seu pai, e deve retornar para que todos saiam para as comemorações do casamento.
Faviela é o segundo trecho da Ópera, e o seu tema.
Faviela
A bença madia cabei de chegá...............................Sua Benção madrinha, acabei de chegar
do rêno das pedra das banda de lá..........................Do reino das pedras, das bandas de lá
meu pai mandô queu vince aqui te salvá...................Meu pai mandou que eu viesse te saudar
tomem queu subesse das nova di cá.......................Também que eu soubesse das notícias de cá
de nada isquecesse de li priguntá...........................De nada esquecesse de perguntar
queu vince e viesse sem mais delatá......................Que viesse logo, sem discutir
desse no qui desse preu li respostá........................Que voltasse ligeiro pra lhe dar as respostas
tem pressa das bota chapeu muntaria.....................Pois tem pressa das botas e da montaria
apois qui amiã iantes de rompê o dia......................Pois amanhã antes de romper o dia
vai junto c'as frota lá pras aligria.............................Vai junto com os tropeiros pra festa
pras bespa das boda de caçula e fia.......................Da véspera do casamento de sua filha caçula
cum prijistença alembra qui é proxa.......................Com penitência lembra que é próxima
e já quaji Às porta a vinda do Grande......................E já quase na porta a vinda do Grande
Rei Jesus o nosso Redentô....................................Rei Jesus, o nosso redentor
manda priguntá se a vida.......................................Manda perguntar se a vida
p'ressas banda miorô............................................pra essas bandas melhorou
é qui lá nos impedrado............................................E diz que nos empedrados
nossa luita inté faiz dó...........................................nossa luta até faz dó
se a fulô do gado..................................................Se o gado está bem,
do gado maió ................................................... ..O gado maior
tombém das miunça..............................................também dos miúdos,
se as cria vingô....................................................se as crias vingaram
da roça só indaga.................................................Da plantação só pergunta
das mendioca só...................................................Do aipim
plantada na incosta................................................Plantado na beira
do mato-cipó.........................................................do mato cipó
findo o priguntoro já torno a istradá..........................Acabado o interrogatório, já torno a viajar
donde é o lavatoro dex' eu me banhá........................Onde é o lavatório, deixa eu me lavar
a casa sutura sizuda as jinela.................................A casa está arrumada, as janelas
vejo a camaria de renda mais bela............................As camas tem a renda mais bela
da sala à cunzinha só inda nun vi ela........................Da sala à cozinha, só não a vi ainda
prigunto pru via daquela donzela..............................Pergunto por aquela donzela
resposta madia cadê faviela....................................Responda madrinha, cadê Faviela?
mia' alma duvia......................................................Minha alma adivinha
qui hai arte do mal.................................................Que há artes do mal
mia' alma difia.......................................................Minha alma definha
margosa de fel......................................................Amarga de fel
só faiz sete lua......................................................Só faz sete luas
qui li di o anel........................................................Que lhe dei anel
jurô qui era mia......................................................Jurou que era minha
pru tinta e papel....................................................Por tinta e papel
foi no minguante dessa passada.............................(Madrinha:) Foi na última lua minguante
tão de repente deu-se o sucesso............................Tão de repente, deu-e o insucesso
qui já nem guento mais essa dô.............................Que já não aguento mais essa dor
vino dos cunfim da istrada.....................................Vindo dos confins da estrada
um mitrioso aqui posô............................................Um misterioso aqui pousou
se arribô de madrugada.......................................... Partiu de madrugada
e faviela ai de mim levô! ......................................... E Faviela, ai de mim, levou!
tão linda tão bela ..................................................Tão linda, tão bela
priciosa donzela ....................................................Preciosa donzela
malvada malunga ............................................(menino:) Malvada menina,
culpada foi ela........................................................A culpada foi ela
jurô qui era mia ..................................................... Juro que era minha
pru tinta e papel ......................................................Por tinta e papel
foi imbora a ruia .....................................................Foi embora a ruim
ingrata e infiel ........................................................Ingrata, infiel
a bença madia já torno a istradá.............................. A benção, madrinha, já continuo a viagem
e tudo queu tinha pra li priguntá ............................. Era tudo que eu tinha pra perguntar
mia'alma difia .......................................................Minha alma definha
margosa de fel ....................................................Amarga de fel
só faiz sete lua .....................................................Só fazem sete luas
qui li di o anel ......................................................Que lhe dei anel
jurô qui era mia ....................................................Jurou que era minha
pru tinta e papel ...................................................Por tinta e papel
foi imbora a ruia ..................................................Foi embora a ruim,
ingrata e infiel........................................................Ingrata, infiel!
Quarta-feira, Novembro 07, 2007 ::: Links da Novela Vidas Opostas para visita dirigida
Liceu Moliere - aula de 19/10/2007
Para compreender melhor o programa de tv, vamos visitar a sua homepage na internet. Podemos Começar clicando neste link: Apresentação E depois, neste:Final. Em seguida, podemos ver um video de divulgação da telenovela, assim como outros trechos de telenovelas.
Aqui estao as homepages das principais emissoras de televisão aberta no Brasil:
Segunda-feira, Novembro 05, 2007 ::: Pela double vitrage eu tomo sol e esquenta. Viajo mundo pelo album do orkut, so encontro quem nao fui, veja que filosofia, que eu explico. Longa Historia, sintaxe de Rodrigo S.M.. Nasci na caixa dagua, mas podia ter sido em Caetite, em Ibiassuce, no Recife. Sao dois mundos. Dois, Bahia e Pernambuco. Ja nasci caduco. No norte, minhas primas, como sao lindas, como me dao saudade de todos no quintal depois da cabidela, depois da soneca, no cafe, no banho, na janta. Como me dao saudade de tudo que nao foi possivel por causa da vida, por causa do tempo, da distancia e para que outras coisas pudessem ser. Saudade que eu podia ter resolvido, mas vim parar aqui. Tem nada nao, quando eu chegar vai ser bem muito mais. Mas tem mais, tem carinho, tem beleza, tem poesia. Tem Tia Vera, sua silhueta de sacerdotisa, sua juventude, seu amor imenso. Tem Tia Luca, sua maternidade romana, seu tempero nosso, sua carninha temperada, seu cuidado. Pretinha, que amor imenso. Tio Valdir, com calma e paciencia, como me entendo quando o vejo. Velho Doda, que tem saudade de nos. Dan, que ja estava ai, tio Jaime. Nem tudo se explica quando entramos numa camarinha e tudo nos conhece, tudo nos reflete e no entanto, nao nos lembramos do ter estado ali acordados. Eu so queria nao falar menos do que devo, por isso tanto.
E o outro mundo, o que foi meu e ja nao tenho, que conhece e nao me busca, que nao reconheco mais como quando sabia cada palma da mao. De igual familia, numerosa, rica em cada um. Se ainda vivo na mesma casa, e dou todas as gracas por isso, nao saimos mas a rua, nem saio eu nem eles. Vamos olhando as fotografias. Esse era pequeno, magrelo, primo do vizinho. Aquela, como era redondinha, hoje modelo. Os desconhecidos de ontem sentam-se hoje nos nossos bancos, nossas pracas, e nao temos mais coragem de ir ate la. E aconteceu comigo o que aconteceu com todos os da minha idade e um pouco mais, fomos todos pelo mundo em busca de coisas que nao tinhamos, e deixamos as cadeiras nessa saida a feira. Nao encontraremos mais. Quem ficou nos incrimina. Clareza. Fugimos de um caminho unico la, e houve quem escolhesse ficar, eis porque. Mas saudade eh uma doenca, madrinha. Quando vem a saudade, sei que tudo isso eh metafisica, eh duvida que nao se materialisa, e me acalmo. Gosto de lembrar. Ai me encontro com o caminho que nao houve, com o que ha agora e os sonhos que tivemos. Com aquela menina eu ia me casar quando completasse 25, daquela nunca ia me separar. Com aquela roupa eu fui a festa, naquela festa eu tive medo de chorar. Eh baiao, arranca essa dor do meu peito pra eu nao chorar.
Tomo Sol pela double vitrage e me esquento. O que posso viver depois de ter vivido isso? Nao a vida, o amor, as contas, o emprego. A vida dentro disso. Como vou comer cabidela e explicar tres vezes por mes a mesma historia de cabidela em Igarassu, esquecer o nome de Igarassu de quinze em quinze dias e ficar chato muito chato, pagando mico ou alguma coisa no novo idioma dos meus filhos? Como obriga-los a passar o Sao Joao longe das festas de camisa, enterra-los na fazenda velha e aborrece-los, sabendo que depois vao morrer da mesma saudade minha, da dor de terem podido ser dali e nunca nunca? Como vou ficar vendo esse sol aqui, se estava consciente desde o meu primeiro banho de sol em Itaparica que nao seria para sempre aquele calor, se nao pude dar-me a ele inteiro sabendo disso?
Meninos, eu vivi, antes nao tivessem fim aqueles dias, quem foi o infeliz que cortou o tempo em fatias e separou as nossas idades em galaxias inalcancaves? Meu mestrado foi em poesia moderna, cantando Tudo outra vez e sabendo que eu faria tudo aquilo outra vez, sem remedios. Sempre compreendi amigos presos amigos sumindo assim pra nunca mais, desde a primeira vez, por que ja vivia assim. Sao nove da manha. Sem sofrer, essa saudade me vem como uma consciencia, e a questao sincera: como vou viver com tudo isso? Viver eh uma tarefa longa, ha quem meta uma vida toda nisso. Vou com fe e alegria, e quando lhe reencontrar saiba que toda essa saudade vai no meu abraco.
Terça-feira, Outubro 30, 2007 ::: Se alguem pode ter pequenas alegrias, superfluas, passageiras...
Vejo ao vivo Blatter conceder ao Brasil a Copa de 2014, vejo Lula, os sorrisos dos brasileiros,
a nossa terra. O mundo respeita o Brasil, eh preciso deixar de pensar o contrario e se dar ao
respeito.
Patria amada, Brasil. Que saudade!
Dez minutos de palmas, riso, choro e alegria.
E eles entenderam direitinho:
Questionado sobre assassinatos no Brasil, presidente da CBF respondeu de forma ríspida e recebeu apoio de Joseph Blatter Nos Eua se mata nas escolas, pelo menos isso no Brasil nao tem. Nossa equipe foi agredida pelos policiais canadenses (o reporter era canadense) e isso poderia ter acontecido em qualquer lugar do mundo. A nossa violencia eh um reflexo da condicao mundial e esta presente em todos os paises, nem maior nem menor. Blatter engrossa o caldo, dizendo que fizeram perguntas semelhantes quando se escolheu a africa do sul, e acabou pedindo respeito ao brasil a fifa e aos presentes. Dez minutos de riso e top top.
Novembro, vai acabar o ano. Aqui em Paris acaba primeiro e só começa depois do carnaval. Não, aqui não tem carnaval, e eu não me resignei ainda, me esqueci. To me guardando pra quando o Carnaval chegar, Marina, mas eu não volto pro carnaval ainda, é que se guentar ate o carnaval eu sei que sobrevivo. Ainda bem que meu bebe chega antes, ai nos sofremos juntos com consolação. Vamos fundar o bloco da consolação pra desfilar no Tuileries. Eu trouxe apito.
Agora, Juazeiro e Petrolina,
Agora, Pedro Laurentino toma mingau com Joãozinho,
Agora, meu avô toma sopa,
Agora, Porto da Barra,
Agora, a onda que sonho e nunca vi,
Agora, minha nunca namorada,
Agora, o acordeon que eu não sei tocar.
Outubro ainda não acabou, pode ser que venha ai o novo aeon, ainda. esperamos ansiosamente por isso. A greve no metro acabou e as pessoas trocaram os últimos olhares de compaixão e compreensão, agora volta a proibição de olhar nos olhos.
tive uma idéia de livro, como um livro de piadas com idéias de revolução. Quando eu voltar terei perdido tudo isso. Quando eu voltar terei vivido tudo isso.
Eu queria dizer que há muitos livros sobre Paris, muitos guias, muitos filmes, muitos cenários e muitas vontades. Eu não posso, eu não tenho nada a acrescentar. Eu poderia repetir, mas não seria justo. É preciso apenas não sonhar com o Hugh Grant, nos não somos ingleses em Paris, nem somos atores em Paris. Um brasileiro em Paris, sozinho, zangado e pobre nao se parece com Hugh Grant, nem com Justin Timberlake, nem com Jorge Amado, nem com ninguém. Quando leio o livro do inglês em Paris, o do stephen clarke, eu rio e identifico os personagens dele, mas não me identifico. Nem sempre.
Em salvador tem uma menina escrevendo coisas idiotas de uma menina de treze anos disfarçadas de coisas sagazes de uma menina de dezesseis anos. Não tem disfarce: coisas idiotas são idiotas sempre. Para provar que ela esta errada e por em pratica o que me ensinou um argentino safado em Lisboa, vou postar umas coisas, mas não vou dizer o nome da dita, que da mala suerte hablar de um mala.
Flora - 1979
Gilberto Gil
Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora
Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora
Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora
Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora
Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora
Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora
Levantado do Chao, Saramago.
Está neste pensar e de repente foge-lhe o rosto do alcance porque os outros dois homens puxam este e deitam-no de costas, despejam-lhe água na cara, um jarro cheio que por acaso vem fresca, tirada do fundo e negro poço, à bomba, mal sabia esta água para o que estava guardada, vinda das entranhas da terra, viajante por muito tempo subterrânea, depois de ter conhecido outros lugares, os degraus pedregosos duma nascente, a aspereza luminosa da areia, o macio tépido do lodo, a estagnação apodrecida do pântano, e o fogo do sol que lentamente a apagou da terra, para onde foi que ninguém a viu, e afinal está naquela nuvem que passa, quanto tempo depois, de repente caiu sobre a terra, veio do alto desamparada, bela é terra que a água vê, e se a água pode escolher o lugar onde há-de cair, pudesse ela e não haveria tanta sede ou tanta fartura quanto tempo depois, de repente caiu sobre a terra, foi viajando, decantando-se, água pura, puríssima, até encontrar o veio, o caudal secreto, a toalha neste lugar perfurada por uma bomba aspiradora, poço sonoro e escuro, e subitamente um jarro, apanhada na transparente armadilha a água, agora que destino, matar uma secura, ou não, derramam-na do alto sobre um rosto, queda brusca mas logo amortecida neste escorrer vagaroso pelos lábios, pelos olhos, pelo nariz e o queixo, pelas faces chupadas, pela testa molhada doutra água que é o suor, e assim se fica conhecendo a máscara por enquanto ainda viva deste homem. Mas a água escorre para o chão, salpicou tudo em redor e a tijoleira ficou vermelha, sem contar as formigas que morreram afogadas, salvou-se aquela maior porque vai na sua oitava viagem e não se cansa.
Memorial do Convento, Saramago
Que dia luminoso, quando Deus andou a criar o mundo não disse Fiat, se assim fosse teria fica o mundo todo por igual, uma palavra e basta, mas foi andando e fazendo, fez o mar e navegou nele, depois fez a terra para poder desembarcar, e em alguns lugares demorou-se, noutros passou sem olhar, aqui descansou, e, não havendo ninguém da humana espécie a espreitá-lo, tomou seu banho, por ainda se lembrarem disso é que as gaivotas se reúnem em tão grandes bandos perto da margem, continuam à espera de que Deus volte a banhar-se nas águas do Tejo, embora outras, uma vez ao menos, em paga de terem nascido gaivotas. E também querem saber se Deus envelheceu muito.
Pois bem. Há a literatura e a literatura dos jornalistas. A escrita e a critica. A escrita e a aspiração. Isso explica muito, mas não justifica. Que se metam a ler tudo de Paulo Francis por que quem tem seu Deus a ele segue, mas só ate ele sobe, não nos esqueçamos. Que tem Flora com isso? Flora é a mulher de Gil, sim, a mulher de Gil. Só ela, só gil para saber o que e isso. Michele e minha mulher, e é uma deusa só por causa disso e não precisa ser mais nada depois disso, como eu não preciso ser mais nada depois de ser seu marido se alguém compreender quem é Michele e quem sou eu. A que se saber muito bem o que é isso. Pronto, chega disso. O mais é saber o que se andou fazendo até aqui chegar.
Paris... Na minha janela eh um anuncio da Panasonic, outro da Sanyo, e um campo onde adolescentes bons de bola sofrem com tecnicos ruins de jogo, e eu posso chingar o juiz todo dia, sem remorso. hoje ele respondeu mandando eu assistir televisao. Ele ficou retado, eu fiquei feliz. Melhor que a Fonte Nova, o juiz nunca responde. air de casa... sei nao. Faz frio, num tem ninguem aqui pra me dizer alo. Domingao do colchao.
Terça-feira, Outubro 16, 2007 ::: Eu nao sei nao, mas por via do bom espirito vamos dar os creditos, a ver, e depois eh com eles.
Sempre pensei nesse tipo de coisa que existe em muitos lugares como um esforco, que antecede outro e outro, ateh que se tem um resultado.
ha mais de 100 km de ciclovias na Ilha de Re, onde estivemos ano passado, e isso funciona muito bem para as saudes coletivas, no plural por que sao muitos sentidos e nao muitas saudes, que ja por serem coletivas nao pedem o s, assim poderia escrever saramago.
Mal posso esperar pra inaugurar.
Ouvindo Globo Fm, Maluco Beleza.
Novo equipamento de lazer em Itaparica
A partir de novembro deste ano, Itaparica ganhará um novo equipamento turístico. A ciclovia, que ligará toda a orla do município, da Marina até Amoreiras, ligando a Orla Oeste com a Leste. O Projeto, que é da Prefeitura
de Itaparica e conta com recursos do Ministério do Turismo através da Caixa Econômica Federal, foi dividido em três etapas. A primeira delas liga a Marina até a Praça da Piedade, e sua conclusão está prevista para o início
de novembro. A segunda fase será iniciada dentro de 30 dias e irá ligar Amoreiras a Ponta de Areia. A terceira e última etapa, que finaliza o projeto da ciclovia, será implantado a partir de 2008, ligando Ponta de Areia ao Boulevard. A intenção é de que boa parte do projeto esteja concluída para o entretenimento dos itaparicanos e turistas.
Domingo, Outubro 14, 2007 ::: eu te escuto todo dia, eh a minha felicidade, eh a radio da bahia, radio sociedade!!! ta taratata Silvio Mendes!!!!
eu sempre pedi um radio pra ouvir as nouvelles daqui em casa e treinar oi meu frances, mas a gloria vem inesperadamente.... e estou aqui ouvindo sociedade a caminhada a africa do sul 2010 direto de paris, ao vivo, sem falhas. BahiaxCrac jogando, eu vibrando. Felicidades em ondas digitais!!!
Obrigado, Deus.
Tem mais video no youtube, vao la ver.
Saudades de casa! (abre abre abre, abre logo essa nova schin... eu brindo sim, eu brindo a alegria numa nova schin!!!!)
Sexta-feira, Outubro 12, 2007 ::: Paris, 12 de Outubro
Dia da America, dia das criancas, de Nossa Senhora Aparecida ali na margem da lagoa. Frio em Paris, vai piorar. estacoes de Hoje: Stalingrad, Strasbourg, Crimee, Ranelagh, Porte de Clignancourt. Aula de Fado de Coimbra. Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar. Abri o mar com as maos para o meu sonho se afogar. Minmhas maos ainda estao molhadas do azul. Alguem ligue pra Jonilson e diga a ele que ele estava certo, profeta querido, professor amado, amigo do peito. Meus colegas, nos andamos o bom caminho. Na estacao Pigalle, a do Moulin Rouge, esta na parede o 'Congres Internacional de la Peur' de um certo Drummond. Aquele provisoriamente nao cantaremos o medo. Nos andamos o bom caminho. Tenho tanta saudade de casa, de toda essa casa Brasil verde e amarelo de praia e sol e protetor solar acaraje e coca cola gelada. Muita saudade. de Voce, meu pimbulao. Beijos pra minha amada que tem saudades e pensa em mim. Roubaram o Luciano Huck, ele nunca tinha sido roubado. agora vai parar de fazer prova besta e remendar as casas da galera de graca, duas por sabado. Nao, nao vai, nem poderia. Vai mais e ter medo, como todos. Faz tempo que nao tenho medo e disso eu nao tenho saudade. Tenho medo pelos outros ainda. E preciso ver que o mundo ainda tem algo de bom, mas tambem nao eh exatamente aqui que se leva isso em conta. temos uma boa batalha pela frente ainda. Estrangeiros do mundo todo, uni-vos.
Quinta-feira, Setembro 27, 2007 ::: Fonteney Sous Bois, le 28 septembre 2007
Pode ser que Paris seja a melhor cidade do mundo para se escrever. Aqui todos são qualquer um, em qualquer tempo, chegando ou partindo. Nada surpreende tanto quanto a pròpria cidade o faz. Por enquanto eu sò sei dizer que vai melhorar, ah vai.
Saudades de todos, e outras reflexões: seria justo que todos pudessem ir e vir, realmente, livremente.
Grande abraço em todos e em cada um.
Dindinha, minha primeira leitora: um beijo de poeta... alias, ao ver o poeta sentado no café brasileira, em lisboa, lembrei-me de nos nessa profissão que é de fé.
Sexta-feira, Setembro 14, 2007 ::: Pelo que me lembro, é Canção da despedida, de Geraldo Azevedo, que aprendi junto com aprender a andar e falar e lembrar.
E dói desde sempre.
Já vou embora
mas sei que vou voltar
Amor, não chora, se eu volto é pra ficar
Amor, não chora,
Que a hora é de deixar
O amor de agora
Pra semrpe há de ficar...
Eu quis ficar a qui,
mas não podia,
o meu caminho a ti não conduzia
Um rei mal coroado
Não queria
o amor em seu reinado
Pois sabia, não ia ser amado,
Amor, não chora
Eu volto um dia
O rei velho e cansado, já morria
Perdido em seu reinado
Sem Maria, quando eu me despedia...
E no meu canto lhe dizia..
Já vou embora,
Mas sei que voltar...
Pra relembrar, um brevezinho que escrevi há mais tempo do que eu achava. As pessoas comentaram lamentando a separação, então deu certo.
dimanche, janvier 04, 2004 :::
No dia em que você foi embora eu preferi fingir que não mudaria nada, não queria lhe dar o prazer de nenhuma importância. Quando eu acordei, a casa vazia era uma certeza que eu não pretendia confirmar, pelo simples fato da ação que seria por sua causa, uma conseqüência da sua partida que eu nunca lastimei. Nós havíamos brigado, você dormiu sem falar comigo e me deu um resmungo azedo como boa noite. Eu me levantei, fui ao estúdio e pintei três marinas ensolaradas, acabadas as seis da manhã, quando eu tomei um banho e fui trabalhar. Um dia comum, pesado pelo sono perdido, silencioso. Entrei em casa sem tocar a campainha e fiz ameixas com leite, que você detesta. Tomei dois copos, uma ducha leve e deitei de costas para a porta. Ainda lembro que coloquei a aliança no criado mudo, um sinal enigmático que talvez tenha te ajudado a se decidir. Acordei as onze da noite, tomei um copo d'água e senti a presença da solidão nas malas que se foram do quartinho da cozinha que você nunca arrumou, misturando sapatos, panelas e o garrafão de água mineral. Quando eu abri a porta, o espaço das malas estava vazio e eu me concentrei em apenas trocar o garrafão vazio e beber água, mais nada. Fechei os olhos para me obrigar a dormir. Ainda antes de ir trabalhar eu pendurei as três marinas na sala de estar, com uma nota embaixo da maior delas, dizendo 'sol sobre parador', só para te provocar caso você voltasse para buscar as suas fotos de debutante da parede, te lembrando o filme em que eu te convenci a me acariciar no cinema do centro. Em um mês eu estava fazendo jogging, dieta macrobiótica e pegando sessões extras na sala de arte do french quartier. Com o dinheiro da televisão que ganhamos do seu pai e que eu vendi para o meu cunhado militar que você odiava, eu comprei uma guitarra e um amplificador elétrico. Aprendi a imitar George Harryson e toquei something para uma antiga amiga do curso de fotografia. Quase compro uma motocicleta, mas preferi reformar a casa trocando o muro alto por um portão de madeira, um jardim de grama inglesa e um siberiano chamado Albus. Encontrei uma coleção de Janis Joplin esquecida no sebo do espanhol que te vendeu um Dom Quixote faltando páginas pelo preço da mancha todinha e só me dei conta de que estava sozinho quando viajei e encontrei o Nélio num restaurante próximo do pedágio. O Nélio, aquele jeitão boa-praça, foi me perguntar logo pela imitação de Luiz Gonzaga que eu fazia pra você quando você adoecia, só por que uma vez eu disse a ele que você detestava e eu fazia só de pirraça, por que você esquecia da doença e me corrigia no sotaque do recife, com a sua versão perfeita da feira de Caruaru. Comi churrasco com chopp, engordei três quilos e assisti as três novelas da globo em plena segunda-feira. Vendi a guitarra elétrica, deixei dar mato no jardim e dei o cachorro pro meu cunhado militar que tem alergia a cachorro mas não dispensa uma doação. Toquei fogo na Janis e pus uma tempestade em cada Marina, com uma etiqueta escrita a mão: No dia em que você foi embora.
Segunda-feira, Setembro 03, 2007 ::: E como eu não descubro a pólvora, vai um pessoal que já dedicou muito mais tempo do que eu ao tema de hoje:
Jornal de Poesia, http://www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html. Todos os textos da lista estão lá, eu acho. Procurem por Autoria negada
Eis a lista dos principais
No caminho com Maiakóvski, que não é de Maiakóvski, mas seria de Martin Niemöller, um pastor luterano, mas é de Eduardo Alves da Costa
Betty Vidigal: Pingo no i de Instantes, indevidamente atribuído a Borges... e também a Nadine Stair
Instantes, que não é Borges... nem de Nadine Stair
Marionete, que não é de Garcíia Márquez
Procura-se um amigo, que não é de Vinicius de Moraes
Ter namorado, que não é de Drummond
Orgulhosa, que não é de Castro Alves
Não te amo mais, um poeminha para ser lido de cabeça para cima e de cabeça para baixo, que não é de Clarice Lispector
Nota:
Faltam outros. Um texto "de" Jabor, um outro "de" Pessoa. Por favor, mande-mos. Aliás, mande não! Já chega de tanta palhaçada.
Mais um pescado hoje em um blog aí feito às custas alheias:
DESEJO - VICTOR HUGO ou “ OS VOTOS - Sergio Jockymann”
Desejo primeiro, que você ame,e que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde magoa.
Desejo pois, que não seja assim, mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos, que mesmo maus e inconseqüentes,
sejam corajosos e fiéis, e que em pelo menos num deles você possa confiar sem duvidar,
E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos;
Nem muitos, nem poucos, mas na medida exata para que, algumas vezes,
você se interpele a respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil, mas não insubstituível.
E que nos maus momentos, quando não restar mais nada,
essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante;
não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
mas com os que erram muito e irremediavelmente,
e que fazendo bom uso dessa tolerância, você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você sendo jovem não amadureça depressa demais,
e que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
e que sendo velho não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste;
não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra que o riso diário é bom;
o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra, com o máximo de urgência,
acima e a despeito de tudo, que existem oprimidos,
injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
alimente um cuco e ouça o João-de-barro
erguer triunfante o seu canto matinal;
porque assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
por mais minúscula que seja, e acompanhe o seu crescimento,
para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo outrossim, que você tenha dinheiro,porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele
na sua frente e diga "Isso é meu",
só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum dos seus afetos morra, por ele e por você,
mas que se morrer, você possa chorar sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo um homem, tenha uma boa mulher,
e que sendo uma mulher, tenha um bom homem
e que se amem hoje, amanhã e no dia seguinte,
e quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer, não tenho nada mais a te desejar.
ERRATA: esta poesia, de autoria de Sergio Jockymann, publicada em 1980 no Jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre-RS, circula na internet como sendo de autoria de Victor Hugo, e assim foi publicada originalmente em nosso portal, com o título 'Desejos'. Contactados pelo verdadeiro autor, com muito prazer desfazemos o equívoco, estabelecendo os créditos a quem de direito. hehehe - os créditos, ça va, mas e a cara de pau?
Pneumotórax Manuel Bandeira, em seu quarto de doente, antes de ir pra Pasárgada, escreveu essa comovente carta que está aí. Uma súplica à espiritualização da alma e à comunhão das informações pessoais. o texto vem sendo publicado em seus livros e irá alcançar um número mágico de 7.777.777 leituras asim que você acabar de ler. por ocasião, deposite 70 contos na minha conta, que eu tô gostando. Amém.
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Com o tempo você vai compreender que não é preciso perdoar se não julgamos os outros. Vai procurar o texto da internet num livro, numa bibliografia, numa biografia, e vai descobrir que nem condenado aquele autor escreveria uma carta desesperada multi-crente e carente. Nem aquele outro. Que morreram muito antes do e-mail, do powerpoint e do significado de repassar. Que não morreram. Que não acreditam, que estão escrevendo outra coisa, indo ao shopping, bebendo um copo de distração, de reflexão ou de questionamento, mas não repassando.
Com o tempo você perde a paciência com lagos gelados, vulcões, ursos, flores, bebês, cachorros, crianças, mendigos. Não a sensibilidade, mas a paciência. Com o tempo você fica velho.
Com o tempo você distingue Chaplin de Victor Hugo, de Cecília, de Bandeira e todos eles do cara que copia os textos do reader's digest e te manda quando você está esperando um e-mail do departamento de pessoal. Com o tempo você aprende que nenhum deles escreveu no fim do livro: leia em uma semana, e você ficará bom da dor de dente. Faça cinco xerox desse livro e deixe na casa de dez amigos. Maria não leu e o filho dela foi para cruz.
Com o tempo você começa a duvidar dos rins que vão te roubar na festa, do pagamento da assinatura de telefone, da lista que está na Câmara, da menina desaparecida que ganha centavos por clique, do golpe do golpe do big brother, do e-mail da receita federal, do e-mail da policia federal, do e-mail do aumente seu penis, do e-mail de compre va-li-um, do e-mail de alguem que te ama mandou esse cartao pra você, do e-mail de veja as suas fotos nessa festa, do arquivo fotos.zip, dos re:enc:linda mensagem. depois de alguns reais, principalmente.
Olha só que legal quando eu pego um ovo
E entro no carro com os amigos e levo o ovo na mão
(Olha o ponto de ônibus
Freia aí meu irmão!!)
E eu taco o ovo bem na cara de um trabalhador
Que esperava o seu ônibus que passou e não parou
Que maneiro eu não ligo pra quem tá sofrendo
Em vez de eu dar uma carona eu deixo o cara fedendo
Que legal se um mendigo me pede um cigarro
É apenas um motivo pra eu tirar mais um sarro
Sacanear um mendigo é a maior diversão
Não tem problema há quantos dias ele não come um pão
E por falar em pão que eu como todo dia
Eu me lembrei da empregada que se chama Maria
Ela me dá comida me dá roupa lavada
Mas quando eu tô presente ela é sempre humilhada
Você precisa ver como eu trato a coitada
Eu a rebaixo a esculacho e fico dando risada
Eu sou playboy filhinho de papai
Me afundo nessa bosta
Até não poder mais
Sou playboy filhinho de papai
Sou um débil mental
Somos todos iguais
Então veja atentamente isso:
E isso:
O loirinho encocainado é neto de Brizola. Com ele aparecem uma leva de colunáveis cariocas famosos lá pras negas deles... até que surgem Ana Furtado e Boni, da Globo. E por mais que Ana queira parecer educada, tem os ditados que dizem 'quem anda com porcos, farelo come' e 'diga-me com quem andas'. Ação pública de repúdio, pra ontem, OAB.
Diz a globo que eles estavam sendo irônicos. Sim, eu sei. Eu sou mesmo Homer Simpson.
Sexta-feira, Agosto 24, 2007 ::: Canção e Calendário Oswald de Andrade
Sol de montanha
Sol esquivo de montanha
Felicidade
Teu nome é
Maria Antonieta d’Alkimin
No fundo do poço
No cimo do monte
No poço sem fundo
Na ponte quebrada
No rego da fonte
Na ponta da lança
No monte profundo
Nevada
Entre os crimes contra mim
Maria Antonieta d’Alkimin
Felicidade forjada nas trevas
Entre os crimes contra mim
Sol de montanha
Maria Antonieta d'Alkimin
Não quero mais as moreninhas de Macedo
Não mais as namoradas
Do senhor poeta
Alberto d’Oliveira
Quero você
Não quero mais
Crucificadas em meus cabelos
Quero você
Não quero mais
A inglesa Elena
Não quero mais
A irmã da Nena
A bela Elena
Anabela
Ana Bolena
Quero você
Toma conta do céu
Toma conta da terra
Toma conta do mar
Toma conta de mim
Maria Antonieta d'Alkimin
E se ele vier
Defenderei
E se ela vier
Defenderei
E se eles vierem
Defenderei
E se elas vieram todas
Numa guirlanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei
Cais de minha vida
Partida sete vezes
Cais de minha vida quebrada
Nas prisões
Suada nas ruas
Modelada
Na aurora indecisa dos hospitais
Olho em volta, meus amigos estão aqui,
mesmo aqui, mondo virtualis.
Olho em frente, meu amor estará lá,
e para trás, tive tudo,
amei cada pesoa ao menos um segundo,
fiz o que pude, com prazer.
Não digo mais 'que me voltem', como antes,
tudo está a seu tempo. Mas, quando faz sol,
quando faz chuva, ou quando faz tempo,
sorrio tranquilo e peço, calmamente,
o dia noso de cada dia.
Sexta-feira, Agosto 17, 2007 ::: "Ele mora numa casa de onze mil metros quadrados nos Jardins, se ele está cansado eu troco de lugar com ele", Macaco Simão, na sua coluna da Folha, sobre João Dória Junior, lider do "Cansei".
16 DE AGOSTO DE 2007 - 17h10
Regina, Hebe, Ana Maria, Ivete: as musas suspeitas do Cansei
''Essa história de levar povo pra rua não é proposta nossa, quantas pessoas virão, não importa. Nós estaremos lá''. A frase é Luiz Borges D'Urso, presidente da OAB paulista e - junto com o empresário João Doria - um dos líderes do Cansei, e dá bem o tom que tomou o movimento.
Por Eliakim Araújo*
Paródia ao cartaz do ''Cansei''
Quando um dos principais organizadores, declara que ''levar povo pra rua não é proposta nossa'' a manifestação é natimorta e condenada ao fracasso. Repare que o autor sequer usa o artigo ''o'', antes da palavra povo. Ou seja, povo para ele é coisa distante, quase virtual.
No mesmo raciocínio, só para argumentar, se o movimento teve algo de nobre em sua origem, ele se perdeu ao distanciar-se das massas e quando escalou sua comissão de frente, formada por Hebe, Ivete, Regina e Ana Maria. Todas estrelas de primeira grandeza no nosso universo televisivo. Todas, à exceção de Regina Duarte, embolsam mensalmente rendimentos acima de um milhão de reais, conforme informações que circulam abundantemente nas colunas e revistas especializadas.
A foto das quatro musas, com rostos circunspectos e a mão direita sobre o peito, não empolga ninguém, porque todos sabemos que elas não são assim. São todas mulheres esfuziantes e, aparentemente, de bem com a vida. A foto ficou falsa - talvez por erro de direção - pois Hebe, Ivete, Regina e Ana Maria não são assim em seu dia a dia televisivo.
Outro pecado na escolha das musas é que pelo menos duas delas sempre foram assumidamente anti-Lula (e anti-PT). Quem não se lembra da atriz Regina Duarte no programa do então candidato José Serra, em 2002, declarando ''temer pelo futuro do Brasil'', caso o candidato do governo FHC não fosse eleito? Quem não se lembra de Hebe declarando abertamente seu voto (e sua eterna amizade) ao candidato Paulo Maluf? Logo, pode-se inferir que o parti pris das duas contra o atual presidente vem de longe.
Diante disso, a pergunta é inexorável. Será que as quatro estão assim tão indignadas com o Brasil? Será que interessa a elas alterar a atual situação social que lhes é tão favorável? Vale a piada: não estarão ''cansadas'' nossas estrelas, isto sim, de ganhar tanto dinheiro?
Quem viveu os grandes movimentos sociais brasileiros sabe que nada acontece sem a participação do povo. A história recente do país registra espetaculares mobilizações populares, algumas nem sempre vitoriosas na primeira hora - como a Marcha dos Cem Mil, em 1968, que recrudesceu a repressão do regime militar com a edição do AI-5 - mas mostraram a força do velho refrão ''povo unido, jamais será vencido''. Outras, vitoriosas, como as manifestações dos ''caras pintadas'', que ajudaram a derrubar Collor do poder. Sem esquecer a campanha das Diretas, em 1984, que levou para as ruas do Rio e São Paulo milhões de pessoas.
O ato na Catedral da Sé tem assim todos os ingredientes para não dar certo: primeiro pelas declarações infelizes e a falta de representatividade de suas lideranças, depois pela escolha errada das musas e finalmente por sua limitação a São Paulo. E, fundamental, esqueceram de chamar os excluídos.
PS. A coluna já estava pronta, quando li a gozação do Macaco Simão da Folha em cima do João Dória Junior, um dos líderes do Cansei: ''ele mora numa casa de onze mil metros quadrados nos Jardins, se ele está cansado eu troco de lugar com ele''.
Oi! Enquanto o futuro ex-presidente da Philips na nossa América resolve tirar sarro do país, eu tomo partido pra dizer que o Piauí é um dos Estados Valentes da Nação, o que qualquer um vai entender se resolver passar por lá. É cajuína cristalina em Teresina!
Cansei de tanta gente ignorante querendo ser importante depois de joder com o país por anos a fio. MOVE, PHILIPS!
Segunda-feira, Agosto 13, 2007 ::: "Os cozinheiros de linha movimentavam-se com tanta rapidez que eu não conseguia acompanhar o que eles faziam. Os pedidos entravam por uma teleimpressora, num longo fluxo de papel, um depois do outro. Andy os retransmitia aos gritos, e sem eu saber quando ou como, me dei conta de que todo mundo havia aumentado simultaneamente a velocidade de suas preparações. Havia uma nova rapidez em seus movimentos, uma urgência. No final da noite, eu não seria capaz de dizer o que havia visto: um borrão, comida sendo jogada para o alto e modos radicalmente diferentes de ser - o jeito sem rodeios e agressivo com que os cozinheiros tratavam o calor e o fogo, longas chamas que flamejavam de suas panelas; e depois uma delicadeza de artista quando montavam cada prato à mão, movendo folhas de ervas e hortaliças ao redor dos dedos e dando o toque final com linhas coloridas de um líquido esguichado de uma garrafa de plástico, como se assinassem uma pintura. Significava o quê? Algo que eu não compreendia. Eu poderia ter estado em Marte."
Calor: aventuras de um cozinheiro amador como escravo da cozinha de um restaurante famoso, fazedor de macarrão e aprendiz de açougueiro na Toscana - Bill Buford. Companhia das Letras, 2007.
Sábado, Agosto 11, 2007 ::: Le troupeau de moutons dont je fais partie a toujours beaucoup de laine à "offrir" aux tondeurs publics et privés. La différence est que l'argent public sert à tous (enfin en gros!)et que l'argent privé va à ceux qui tiennent en mains "propres" la tondeuse! De celà ni les uns ni les autres ne nous sont reconnaissants même quand l'herbe est rare! - de um leitor do le monde, queixando-se da exploração das telefônicas francesas.
Dans un article sévère, Time Magazine a titré sur le chef de l'Etat français et "la politique des vacances dans le New Hampshire". L'hebdomadaire voit en M. Sarkozy un homme "fasciné par les riches et les célébrités", qui "se nourrit de l'attention médiatique". Il a critiqué le débarquement "théâtral" de M. Sarkozy dans le bateau des photographes qui le suivaient. Et encore plus l'opposition et la presse françaises pour avoir concentré leurs attaques sur les vacances du président au détriment de l'affaire de la libération des infirmières bulgares.
"Le deal avec Tripoli est passé au second plan pendant que les médias se prélassaient au chaud soleil de Wolfeboro, New Hampshire", conclut le magazine.
Do le monde, sobre o presidente que tira férias nos Estados Unidos. O mundo é desse tamanhinho, ó.
Sexta-feira, Agosto 10, 2007 ::: Hoje é meu aniversário. Tenho a mesma idade de tudo, estou aqui desde que nasci. Vivo bem, crio e apago dentro de mim, engulo quando não suporto e suporto o que não poso engolir, mas vivo muito bem. Nem tudo que admiro me governa, mas a beleza é quem me aquece. Vou vivendo muito bem, cheio de desafios. Vale a pena tomar um café, como ensina meu avô. E nada mais vale a pena, como aprendi sozinho. Eu já pensei em revolução, hoje é resistência, depois quem sabe aposentadoria. Uhlálá, tenho vinte e poucos anos. Será que esse blog vai esperar os meus filhos?
Quinta-feira, Agosto 02, 2007 ::: Laurentino 38 Quartiere Periferico di Roma
Eu já sabia que Laurentino é um bairro de Roma e que tem um Deputado Pedro Laurentino e a cidade de Pedro Laurentino do Piaui. O que me espanta são os milhares de videos da tag laurentino no Youtube. Eu sou um Silva!
Terça-feira, Julho 31, 2007 ::: De Alan, escrito para o Plano Cruzado e revivido por ocasião de seu aniversário. Meu amigo, nada mudou.
Ah, a Marina...
Pois então, estamos aqui de novo. O século XXIaconteceu, o mundo não se acabou e o suposto Bug doMilênio fez até aniversário. Na verdade eu bem quegostaria de estar falando mal do carnaval e dessasmúsicas que não são mais alegres do que aliciadoras,mas ainda tenho vontade de estar na terceira ediçãodesta revista. Isso mesmo. Não me venham com essasconversas de liberdade de expressão, censura zero etal, pois comigo isso não cola, vide o CarlinhosBrown. O pobre coitado teve a maior dor de cabeça nocarnaval passado só porque ficou, digamos, um poucomais à vontade em cima de um trio elétrico. Censuracom todas letras. Mas não estamos aqui para falar decarnaval, nem de nada que tenha relação com o mesmo.Imaginem, se em pleno terceiro milênio, vou perder meutempo com uma festa de dança da chuva ligada natomada? Não mesmo. Eu tenho mais é que falar deciência, de progresso, do projeto Genoma, dos clones,da marina que estão fazendo na cidade de Itaparica,coisas que são nitidamente para o bem do povo, de umamaneira geral. Vejam bem: uma marina atrai capitalestrangeiro, pena que para o bolso do estrangeiro. Masagora ninguém pode reclamar por falta de cama paraarrumar, casa para faxinar, jardim para catar folhaseca e cocô para dar descarga. Sim, porque com amarina evidentemente aumentará o fluxo de turistaspela cidade, e por tabela, aumenta a sujeira a serlimpada, disso não tenho dúvidas. O que não vejo comouma coisa muito certa é a comida na mesa dosItaparicanos no inverno, pois turista que é turistasabe que enquanto chove na ilha faz sol na Flórida.Mas não reclamemos de barriga cheia. Duvido que emqualquer cidade do mundo se tenham mais orelhões pormetro quadrado do que em Itaparica. É impressionante aeficiência da Telemar nesse sentido. Sinceramente nãodescobri ainda qual a justificativa para tamanhapreocupação com o bem-estar telefônico do cidadãoitaparicano. Pode até ser que o novo slogan da Telemarseja “é melhor sobrar do que faltar” e eu, como umeterno desavisado, esteja aqui falando bobagem. Mastudo bem. Ninguém naquela ilha encantada pode reclamarde nada, justamente por ser encantada. Exatamenteisso, pois uma fonte de água mágica não nasceria em umlugar qualquer, que não fosse igualmente mágico, e compropriedades não só curadoras como tambémprofiláticas. E haja magia e quebranto para curar umapessoa, do mal que seja, inclusive os do coração, comaquele tanto de coliformes fecais, que todo mundo estácansado de saber que tem e, quem sabe, podem até seros responsáveis pelas propriedades medicinais erejuvenescedoras da água da Fonte da Bica, cartãopostal e ex-ponto turístico da cidade de Itaparica.Sim, ex, porque o xodó agora é a marina...
Segunda-feira, Julho 23, 2007 ::: ACM DO DEM-BAHIA TEM REUNIÃO COM O DEMO-PROFUNDAS:
Eu disse que um dia ele ia, lá se foi. Vou economizar na despedida pq a notícia é antiga e o corpo já está fedendo ou então já ressucitou nesse terceiro dia. E não é que eu fui parar na porta do velório? Deus é bom, o homem é mau. E agora, quem vamos culpar?
Quinta-feira, Junho 14, 2007 ::: Para Deixar de Apanhar
Ensaio de Tom Zé para a Revista Piaui disponível em http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=64&unica=1. Eu nunca Comprei Resvista Piauí porcausqui eu ando meio desconfiado, mas se Tom Zé foi lá ele deve estar bem informado.
O único rio de Irará chama-se rio Seco. Ele só corre um pouquinho quando tem uma grande chuva. Depois pára. Mas nós todos aprendíamos, com uma dança dramática chamada Chegança, tudo quanto é termo da arte de navegar. Madeirames, mastros, quadrantes e sextantes. Aprendíamos também que tínhamos de expulsar os árabes. Nunca soubemos expulsar árabes, porque nem sabíamos o que era isso.
Em Irará aprendia-se também a tabuada. A tabuada era mais misteriosa do que aqueles navios que não tínhamos onde atracar, mais enigmática do que os infiéis que precisávamos expulsar. Era uma experiência dolorida. Oito vezes sete, 56. Eu me perguntava: ¿Quem pode, de sã consciência, provar que oito vezes sete é 56?¿ Oito vezes cinco, 40, oito vezes seis, 48. Um dia, me perguntei, com medo da resposta, quanto era dez vezes dez. Dizia para mim mesmo: ¿Ai, minha Nossa Senhora, aí vai ser um inferno completo¿. Quando a professora respondeu ¿cem¿, tive um grande prazer. Pensei: Deus está bem intencionado com a humanidade, Deus está olhando pelos seus filhos, pelas suas criaturas.
Para mim, a grande criatura era o alfabeto. A mãe até ensinava, desavisada, antes que entrássemos na escola, que ¿b¿ e ¿a¿ davam ¿ba¿, ¿b¿ e ¿e¿, ¿bé¿, ¿b¿ e ¿i¿, ¿bi¿. Mas, e para entender o que era isso? Quando janeiro chegou, e comecei na escola, com meus oito anos recentes, a professora mandou ler em silêncio, e eu nunca pensei que aqueles sinais podiam transmitir coisas tão exatas como aquele texto. O texto dizia que um aluno, colega nosso, tava com um problema em casa, e então pedia licença à professora para ir para casa. Nossa Senhora, era um verdadeiro assombro! Olhei para o lado, sem acreditar que todo mundo estava vendo o aluno pedir à professora para ir pra casa, se levantar, fazer esse gesto que movimenta milhões de músculos. Eu desconfiava que aquilo, aqueles sinais, não eram capazes de transmitir a todo mundo igual ao que eu estava entendendo.
Aprendi a falar com três anos. Todos aprendiam a falar com três anos. Eu ficava deitado no berço, e ninguém ia lá me incomodar. Durante a meninice toda, era todo o tempo possível para a contemplação do infinito. Passei quatro dias pensando no alfabeto. Será que todo mundo de Irará entendia aquele negócio com a exatidão que eu entendi?
E o raciocínio? Estela, minha irmã, ganhou um velocípede. Ela tinha quatro anos. Eu tinha sete. Naquela noite, passei todo o escuro planejando como eu ia ensinar Estela, de manhã, que o pé de cima empurra o pedal até a hora que chega no fundo, e que, quando chega no fundo, é o outro pé que começa a empurrar, e esse primeiro perde a força. Passei a noite toda na procura das palavras certas. Quando foi de manhã, Estela sentou no banquinho. Eu, a maior autoridade, o mais velho dos irmãos, comecei a dar a Estela as instruções. Estela não tinha o menor contato com essas coisas explicadas. Depois de um tempo foi um ¿Ah, isso não vale nada...¿, e saíram empurrando desembestados o velocípede ¿pa, pa, pa, pa...¿. Ela aprendeu mesmo. E eu fiquei decepcionado, fracassado, derrotado, porque eu tinha empenhado muito trabalho nisso.
Um dia, ganhei uma espingarda. Um tio que veio do Rio foi quem trouxe. Ela atirava rolhas. Tive uma coisa, que hoje só posso chamar de febre, porque fiz um cálculo que, se eu desmontasse a espingarda, ficaria com tantos pequenos materiais, e tão especificamente destinados a uma função, que, juntando com o que eu achava na rua, com as coisas que eu via de outros aparelhos de casa, ia ter uma verdadeira fornalha de Vulcano. Ao mesmo tempo, tinha medo que, uma vez destruída a espingarda, eu ficaria sem espingarda nem nada. Em mim vivia o sonho, a fantasia do criador, mas também a lógica do homem com alguma experiência, aos sete anos de idade.
Mais prazer tive ao aprender a amarrar o sapato. Amarrar sapato é uma coisa complicada, mas você pode se aproximar dela lentamente. Uma hora você vê o laço dado, outra hora alguém lhe dá uma primeira lição, ou seja, a primeira dobra do laço. Noutro dia você é capaz de pensar na segunda lição. A vantagem é que você sempre pode ver o sapato amarrado por alguém, para você comparar. E foi aprendendo essas coisinhas que percebi que o ato de pensar seria uma maneira de eu me mover dentro do mundo. Um sextante.
A grande prova disso tive pouco tempo depois com a ajuda do futebol, da garoa, de Carlito e de minha asma. Quando era pequeno, minha mãe pensava que a asma daria em tuberculose, que matou (naturalmente que de pobreza e de fome) a maior parte dos parentes de meu pai. Chuva, chuvisco, jogar bola, ar livre, sol ¿ tudo era perigoso para mim. Eu estava jogando bola e, por uma janela do fundo da minha casa, a minha mãe via uma parte do campo, e eu ouvi ela gritar ¿Antonio José!¿. Pensei: ¿Hoje eu tô fodido¿. Aí veio a inspiração. ¿Quem é que parece mais comigo?¿ Ah sim, Carlito, filho de seu Albertino. Chamei ele, mandei que tirasse a blusa e botasse uma boina, como aquelas que o Heleno de Freitas e eu usávamos, nos anos 40. Pedi que Carlito passasse na frente da porta de casa, várias vezes. Carlito fez a coisa tão bem feita que, na hora que eu entrei em casa, minha mãe me disse: ¿Nossa Senhora, Antonio José. Que bom que você está aqui. Já tinha pego a palmatória e o cinturão para lhe dar uma surra, pensando que você era o menino que estava jogando bola, e, quando o menino passou aqui, vi que não era você¿. Ah, a glória! Subiu aquele calorão dos meus pés. Não por não tomar a surra, mas por aprender que o raciocínio podia me salvar. A convicção de que isso era possível, que eu poderia enfrentar agora todos os meus inimigos, todas as proibições.
Na infância também aprendi outras felicidades que me acompanhariam. Quando a Segunda Guerra começou, em 1939, eu tinha três anos. Todos nós, em Irará, tínhamos três medos: Deus e o inferno, medo de Lampião e seus cangaceiros e, por fim, um medo terrível dos alemães, da guerra e de palavras como ¿Berlim¿. Até hoje não me lembro de uma emoção tão larga e ampla como a de uma manhã, a de 8 de maio de 1945, quando o professor Arthur, que me daria muitas outras felicidades, disse a todos nós a seguinte frase: ¿Desde a zero hora, no meridiano de Greenwich, que não se dá um tiro sequer na frente de batalha. Rendição incondicional do fascismo¿. Ele dizendo isso, e eu arrepiado. Esse aprendizado acabou sendo muito importante.
Meu livro de aprendizagens só ganharia capítulos mais gordos anos depois, quando conheci Hans-Joachim Koellreutter. Aprender música com ele e seus colegas era como descobrir como desarmar, ou não, aquela espingarda. Aprender harmonia era tão interessante quanto ensinar minha irmã a pedalar um velocípede. E aprender serialismo e dodecafonismo era tão interessante quanto descobrir que eu podia vestir um rapaz com minha boina e deixar de apanhar. Aprender, eu mesmo aprendi, é em grande parte deixar de apanhar.
Terça-feira, Maio 15, 2007 ::: Repare naquela estrada, a que distância nos levará?
Eu devia ter onze anos, se isso aconteceu quando eu me lembro que aconteceu. Estavamos em Pernambuco, Santo Aleixo, Jaboatão da batalha dos Guararapes, terra que também é minha, mas é mais de Tiago. A gente estava em Santo Aleixo, na casa de tio Jaime, padrinho de Tiago. Jaime é uma figuraça que adoro e eu gostava de ele ter namorado com Cristina Amaral por que eu toda vez que eu ouvia "Eu sou o Forró" eu me lembrava dele e tinha uma saudade gostosa de rir sozinho e ninguém mais saber por quê. Tio Jaime casou com Tia Mônica, que eu gosto muito, mas muito mesmo. Acontece que nesse dia Jaime deu de se declarar dizendo que Monica era uma mulher que revirou a vida dele toda, que tinha sido a única paixão da vida dele, quando eu comecei a cantar e todo mundo cantou também: sabe quem sou eu, sabe quem sou eu, eu sou o forró... Desse dia até hoje eu gosto muito mais de tudo isso, de Tio Jaime, de Mônica e do forró de Cristina. E tem dias em que a saudade aperta, rói, mói e dilacera. Ê, baião...
Ladeira da preguiça
música e letra: Gilberto Gil
1971
Essa ladeira
Que ladeira é essa?
Essa é a Ladeira da Preguiça
Preguiça que eu tive sempre
De escrever para a família
E de mandar contar pra casa
Que esse mundo é uma maravilha
E pra saber se a menina já conta as estrelas
E sabe a segunda cartilha
E pra saber se o menino já canta cantigas
E já não bota mais a mão na barguilha
E pra falar do mundo, falar uma besteira
Formenteira é uma ilha
Onde se chega de barco, mãe
Que nem lá
Na Ilha do Medo
Que nem lá
Na Ilha do Frade
Que nem lá
Na Ilha de Maré
Que nem lá
Salina das Margaridas
Essa ladeira
Que ladeira é essa?
Essa é a Ladeira da Preguiça
Ela não é de hoje
Ela é desde quando
Se amarrava cachorro com linguiça
Quinta-feira, Maio 03, 2007 ::: Me preparando para ser um dos dez mais:
O que encontra um blogueiro quando vem aqui?
( ) uma teia de aranha do topo ao pé da página
( ) um best seller in natura
( ) mais um blog ruim
( ) centenas de razões para não escrever a esse soldado de chumbo
( ) consolo